09/06/2018

Vó Nair deixa Artur Nogueira após perder casa em ação judicial

CDHU retomou posse de residência em que Iefan foi fundada, e Vó Nair vai morar em Cosmópolis (SP)

Da redação

No início da noite desta sexta-feira (8), a casa de número 825 da Rua Albertino Stocco, em Artur Nogueira, ficou vazia. Vó Nair, que morou na residência por cerca de 18 anos e nela fundou a Instituição Evangélica Filadélfia de Artur Nogueira (Iefan), pegou tudo o que possui, colocou num caminhão e carregou para Cosmópolis (SP), onde residirá com um filho.

Ela perdeu o imóvel após uma longa disputa judicial com a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU).

Vó Nair veio para Artur Nogueira em 1997 após morar 48 anos na capital paulista. Ela se mudou juntamente com o marido, uma filha, um genro e dois netos. Segundo a idosa, de 85 anos, eles se mudaram para a residência no Jardim Vista Alegre em meados de 2000. A residência foi comprada pelo genro diretamente com o proprietário do imóvel por meio de um contrato de gaveta, segundo Nair.

O que eles não sabiam é que a residência, na verdade, pertencia à CDHU e ainda estava em processo de aquisição pelo residente original. A negociação não poderia ser executada sem antes formalizar-se junto à empresa a transferência da compra para o nome do genro de Vó Nair, que então deveria continuar a pagar as parcelas para a companhia e concluir o processo de aquisição do imóvel.

Sem ter conhecimento disso, a família se mudou para a casa. E mais: como eram seis pessoas e a residência tinha apenas quatro cômodos, eles ampliaram a casa com novos cômodos, colocaram laje e novas telhas, conta Vó Nair. Foi nela também que a senhora iniciou as atividades da Iefan, cuidando de crianças carentes com os poucos recursos que possuía.

Algum tempo depois, o genro mudou-se com a família para outra casa, doando para Vó Nair e o marido o imóvel que também atendia as crianças da instituição. Após a morte do esposo, a fundadora da Iefan foi diversas vezes convidada pelos filhos e familiares a voltar a morar em São Paulo (SP). Mas ela se recusou em todas. “Eu dizia que não, porque Artur Nogueira é meu lugar e eu tenho que ficar com aquelas crianças”, relembra.

Ao mesmo tempo, a CDHU constatou que havia débitos do proprietário original junto à companhia que não eram pagos há muito tempo. Isso levou a empresa a requerer a reintegração de posse da casa. O processo correu por muito tempo sem o conhecimento de Vó Nair. A surpresa foi enorme quando ela tomou conhecimento da situação e soube que poderia perder a casa. A senhora, então, procurou ajuda de advogados para tentar reverter a situação.

Segundo Mateus Michelon, advogado que atuou junto à dra. Maria Aparecida Barboni no caso, foi feito contato com o proprietário original do imóvel e solicitado que ele formalizasse a transferência do imóvel para o nome de Vó Nair. No entanto, segundo Michelon, ele se recusou a efetuar a transferência, deixando os advogados de mãos atadas no processo.

Sem transferir o imóvel junto à CDHU, não há o que se possa fazer legalmente, e a empresa tem direito de pedir a reintegração de posse da residência para que esta volte ao programa do Governo Estadual. E foi isso que aconteceu.

A Justiça, segundo Vó Nair, determinou que ela deixasse a casa até o dia 15 de junho, próxima sexta-feira. Para evitar problemas mais graves, ela decidiu se mudar uma semana antes, nesta sexta (8). De acordo com a fundadora da Iefan, ela residirá numa casa de três cômodos em Cosmópolis (SP) que foi preparada por um dos filhos para recebê-la.

Após 20 anos, Vó Nair deixou Artur Nogueira.

“Morei 48 anos em São Paulo (SP) e vim para cá. Quando cheguei, vi aquelas crianças todas sujas, com piolho, com fome. As mães saíam cedo numa perua para ir arrancar mandioca e cortar cana, e deixavam os filhos sozinhos, na rua. E eu falei: eu quero cuidar dessas crianças. Comecei a dar banho nelas, a limpar a cabecinha delas, a dar comida. Eu não tinha dinheiro para comprar pão, suco. Fazia bolinho de chuva com chá de cidreira”, relembra.

Apesar da mudança, a Iefan funcionará normalmente, e a Vó Nair acompanhará as atividades da instituição mesmo com a distância.

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