10/07/2016

Presidente da Flyer fala sobre nova fábrica de aviões e geração de empregos em Artur Nogueira

Nelson Gonçalves explica detalhes do empreendimento e diz que Artur Nogueira terá preferência na mão de obra.

Por Rui do Amaral

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Não é qualquer município que pode receber uma pista para pouso e decolagem de aviões. Muitos fatores são responsáveis por isso, como relevo, áreas preservadas, quantidade de prédios, etc. Encontrar um local onde se possa construir uma pista de decolagem não é tarefa fácil, e quis o destino que Artur Nogueira possuísse as características inversas a todos os fatores citados acima. Resultado? O município irá receber um condomínio aeronáutico, também conhecido como aeródromo, fato que atraiu uma fábrica do ramo da aviação para a cidade.

Idealizado pelos empresários José Antônio Bragalia e José Adolfo Queiroz, o aeródromo denominado “Aero Park Brasil” deverá ter suas obras iniciadas ainda este ano por uma construtora de Cajuru-SP, com previsão de término para 2018. O projeto é semelhante a um condomínio, onde os moradores terão hangares junto das residências. No final do mês passado foram assinados os documentos que transferem uma área de 20 mil m² para a Flyer, empresa que fabrica aviões, que se comprometeu a entregar a indústria 24 meses após o aeródromo ser concluído. Ou seja, se o cronograma seguir como planejado, Artur Nogueira deverá ter uma fábrica de aviões até 2020.

Foi com esta informação preciosa em mãos que o Portal Nogueirense decidiu conversar com alguém responsável pela Flyer, para explicar um pouco mais sobre o ambicioso projeto. Nossa equipe de reportagem foi até Sumaré/SP, local onde é situada a sede da fábrica e conversou com Nelson Gonçalves, presidente da empresa. Nascido em Cerquilho/SP, o experiente empresário contou alguns detalhes sobre a história da Flyer e mandou um recado aos nogueirenses que desejam trabalhar na manufatura das aeronaves.

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Você sempre esteve ligado a aviação? Nem sempre. Quando tinha 16 anos prestei vestibular para a Academia Militar das Agulhas Negras, que hoje está aqui em Campinas, na época era em São Paulo. Meu irmão já estava lá há 2 anos, e eu entrei assim cedo na carreira militar. Cidades pequenas possuem muitas facilidades quando são bem localizadas. Então fui matriculado e comecei a carreira nas Armas, e foi um período muito agradável. De menino de sítio passei a frequentar a Academia e cursei Engenharia de Combate.

Que tipo de trabalhos você aprendeu a desenvolver? Este tipo de profissional exerce várias funções. Aprendi a montar e desativar um campo minado, construir e desmontar pontes, erguer um acampamento do exército, tratamento de água e esgoto, entre outras coisas.

Depois de se formar na Academia, para onde o senhor foi? Quando saí da Academia das Agulhas Negras, em 1956, fui trabalhar em uma companhia ferroviária, na divisa entre o Paraná e Santa Catarina, em Mafra/SC e Rio Negro/PR. Lá é um lugar muito interessante, me apaixonei pelos dois estados. Fiquei lá por quatro anos. Eu ficava no meio do mato e cuidava de um trecho de 234 Km, que ia de Rio Negro-PR à Lages-SC. Participei ativamente da construção desta estrada.

Como era cuidar de uma ferrovia? Eu trabalhava comandando os soldados que a construíam. Em 1958 comecei a chefiar o tráfego ferroviário em Santa Catarina. Fiquei dois anos nesta função. Neste meio tempo, convivi com muitos madeireiros e eles tinham muita dificuldade quando chovia, pois não existiam vagões suficientes. Lembrei deles e arrumei muitos vagões para eles. É uma época que sinto falta.

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E depois? Depois disso, fiz Engenharia Elétrica no Rio de Janeiro e depois de formado fui trabalhar em Piquete/SP, em uma fábrica de explosivos. Depois de dois anos lá voltei para São Paulo, trabalhando no quartel do segundo exército. Depois de me aposentar no exército, trabalhei em um escritório de engenharia como gerente de projetos. Trabalhei gerenciando projetos dos terminais de passageiros no aeroporto de Guarulhos, que estava sendo construído na época. Eu tinha uma equipe grande de engenheiros e desenhistas, de aproximadamente 250 pessoas. Foi o primeiro contato com os aviões, mesmo um pouco distante deles.

E como isso tudo se encaixa no surgimento da Flyer? No final de 1982, eu estava trabalhando nos projetos e Nelson, um de meus filhos, que trabalhava comigo no projeto do aeroporto, chegou na minha sala em novembro de 1982, mesmo ano em que meu outro filho, Cláudio, estava se formando em Engenharia Mecânica. Ele me disse que estava saindo da empresa. Eu perguntei porque, já que ele estava lá desde a época de estagiário, e ele me disse que não queria ficar a vida toda atrás de uma prancheta. Ele disse que queria fabricar algo. Eu disse que ele já era adulto e podia fazer o que bem entendesse, e eu o apoiaria.

O que seus filhos resolveram fazer após saírem de seus empregos? Em dezembro do mesmo ano, eles disseram que iriam para os EUA. Os dois venderam seus carros, piano e moto, e com este dinheiro estavam indo comprar um ultraleve para montá-lo e vende-lo no Brasil. Fiquei receoso, mas não poderia cortar o embalo deles. Eu sabia que isso não era tão simples, mas não poderia ser contrário a um pensamento tão para frente e inusitado. É deste arrojo que são feitos os grandes empresários. Eles foram em dezembro, passaram o natal e o ano novo lá. Moraram por um ano nos EUA e no Canadá, e me disseram que compraram o ultraleve.

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Como foi esta fase inicial? Era muito difícil, pois logo percebemos que tínhamos que ter um terreno para construir a fábrica e também de um hangar, ao lado de uma pista de voo para assim podermos testar os aviões, afinal como venderíamos um produto como este sem antes fazer toda uma bateria de testes? Foi então que comecei a procurar alguma cidade disposta a nos ajudar.

Qual foi a cidade escolhida? Primeiro fui a Boituva. Nada feito. Tietê, onde tinha um barracão pronto, também não deu certo, pois o presidente do aeroclube local não permitiu nossa instalação. Fui para vários outros lugares e sem nada dar certo começamos em São Paulo mesmo.

Como era o primeiro avião construído? O primeiro avião, se você olhar, nem parece que poderia voar. Era uma estrutura aberta, fixada com cabos de aço e asas feitas de tecido, era uma loucura. Voar com aquilo era uma aventura.

Vocês ficaram até quando em São Paulo? Ficamos em São Paulo até 1989 e testávamos o avião na pista dos Amarais. Era uma mão de obra tremenda. Eles começaram mesmo foi num barracão em São Paulo, e desde o primeiro dia eu comecei a me envolver, afinal não tem como ficar de lado quando seus filhos entram numa empreitada como essa, me senti na obrigação de dar o suporte para eles e acabei como diretor e presidente da empresa.

Quando foi que você passou a se dedicar totalmente à Flyer? Eu ainda estava coordenando as operações de engenharia em Cumbica e, após a inauguração, em 1985, passei a me dedicar completamente à Flyer junto de meus dois filhos. Falei com meu colega da comissão aeronáutica, que sabia das atividades dos meus filhos e fui, já que eles trabalhavam sozinhos com apenas mais um funcionário. Eles foram se desenvolvendo aos poucos até que começaram a crescer. Abrimos em 1989 nossa fábrica aqui em Sumaré, já que tínhamos por perto a pista do aeroporto de Americana, onde realizamos os voos de ensaio das aeronaves. Não dava mais para ficarmos sem uma pista de pouso. Foi aí que começamos a trazer modelos novos dos EUA, mais elaborados, por percebemos que, para crescer, teríamos que avançar por estes caminhos. Então passamos a montar estes diferentes modelos e com os anos fomos evoluindo até chegar a gama atual, que é de seis modelos diferentes.

E por que vocês decidiram mudar a fábrica para Artur Nogueira? Tenho bons amigos em Artur Nogueira. Poucos, mas bons. Edson Rezende é um deles. Ambos somos diretores da Fiesp de Campinas, ele de Artur Nogueira e eu de Sumaré. Já faz muito tempo, cerca de 12 anos, que eu me encontrava com o prefeito de Artur Nogueira da época, em reuniões da Fiesp. E há muito tempo que nós não vemos muita perspectiva de crescimento das empresas do país, e nós tínhamos esse desejo de expandir. Também conheço o Bragalia há muito tempo, ele vem aqui faz anos. E eles sempre me diziam para mudar a fábrica para Artur Nogueira. Porém eu não tenho mão de obra pronta para realizar uma empreitada dessas. Preciso pegar um menino e forma-lo ao menos por dois anos em uma escola profissionalizante para que ele possa trabalhar a montagem, por exemplo.

Que outras dificuldades existiam? Como vou levar toda a estrutura para Artur Nogueira? Eles tentavam me convencer desde 2004, e eu chegava a pensar, “quem sabe um dia?”. Em Sumaré, nós já tentamos, não possui uma área para podermos construir uma nova fábrica. Estou aqui desde 1989 e, por mais que haja muita área rural, esta área é preservada, ou seja, é muito difícil de construir. Há uns cinco anos consegui um terreno de 7.500 m² em Americana. Os jornais trataram a situação de forma muito grandiosa, porém na hora de assinar o contrato, o prefeito de Americana não cumpriu com a sua palavra. Ele tinha me prometido o terreno, mas por causa de dinheiro cedeu para outra empresa e ficamos na mão. Foi muito ruim, pois sempre trabalhamos com seriedade e quando estes jogos políticos ocorrem ficamos realmente chateados. No fim este prefeito acabou cassado. Mas Americana era uma cidade maravilhosa antigamente, morei lá por sete ou oito anos, tenho ótimas recordações. Era uma cidade cuidada como uma pérola. E, como perdemos a área, acabou sendo algo positivo para nossa empresa, já que não gostamos de ficar na mão de políticos.

Quando você passou a realmente considerar a mudança? Foi quando o Edson e o Bragalia me ligaram, há cerca de um mês atrás e me explicaram o projeto de fazer um aeródromo. Na hora eu não acreditei, porém eles me explicaram detalhadamente todo o projeto e disseram que, inclusive, já havia sido aprovado a ANAC. Eles guardaram segredo por muito tempo até que fosse tudo aprovado, já que em épocas de crise tudo fica mais difícil. O Bragalia me disse que precisava conversar comigo e chamei ele aqui, junto com o Edson. O Bragalia me falou que acharia um terreno para mim. Eu avisei ele de algumas coisas. A primeira delas é que eu não teria dinheiro para comprar um terreno. A segunda, como vou levar tudo isso daqui para lá?

E o que fez com que a mudança fosse decidida? Eles vieram para cá e me disseram que, quem sabe vendo a área, eu poderia me interessar. Resolvi pegar meu carro e ir até o local junto com eles. Fiquei impressionado. Me disseram que não era da Prefeitura, o que achei positivo. Eu já conhecia Artur Nogueira. Já fui ao hospital, que achei muito bom, mas nunca tinha entrado lá para dentro. Achei a cidade muito plana, e continuei a me impressionar. Depois de conversarmos um pouco, eu e o Bragalia fomos até o Celso Capato. Conversamos de maneira direta, sem rodeios. Eu ainda não tinha perspectiva para investir, na crise você arma seu negócio para suportar o momento de dificuldade e tenta sobreviver, então realmente não estávamos muito seguros em investir, mesmo almejando um certo crescimento. Ele me disse que queria muito que viéssemos para cá. Quando olhei a área, logo percebi que de lá se pode ver a cidade toda.

O que você achou de Artur Nogueira após a visita? O lugar é muito privilegiado. Vendo o mapa da cidade, podemos perceber que existe um só prédio. A cidade não possui morros, é arborizada, limpa, não parece uma cidade brasileira. É fora do padrão. Conheço todas as cidades da região e vi que Artur Nogueira é uma cidade realmente maravilhosa, com um potencial fantástico. Minha mulher é campineira, e lá não temos a hospitalidade que temos em Artur Nogueira. Eu nasci e cresci em Cerquilho/SP, que é do tamanho de Artur Nogueira, e uma das coisas que mais sinto falta da minha cidade é da maneira com que tratamos as pessoas, todo mundo se conhece, todos se cumprimentam, é este clima de interior, este clima familiar, que dentre todas as características de Artur Nogueira, me chamou mais a atenção e me fez ter a certeza que lá seria um bom lugar para instalar a fábrica. Aqui em Sumaré, que é uma cidade dormitório, ninguém se conhece ou se cumprimenta. Moro num condomínio muito bacana, fui síndico por seis anos. Ao invés de todos os moradores serem amigos, só tem inimigo. Todos parecem estranhos. Em cidades pequenas como Artur Nogueira todos se conhecem, as pessoas têm as mesmas histórias, se formaram nos mesmos colégios, gosto muito disso.

Qual é a produção atual da Flyer? Nós já chegamos a produzir 15 aviões por mês. Hoje fazemos dois aviões por mês devido à crise. Temos atualmente 25 funcionários e pretendemos aumentar para 250 após a mudança para Artur Nogueira.

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A produção será a mesma de Sumaré? Quando estivermos em Artur Nogueira pretendemos produzir apenas aviões homologados, ou seja, aviões certificados pela ANAC. Hoje nossos aviões são experimentais. O que diferencia, na prática, é o fato de os aviões homologados terem cada peça, mesmo que apenas um parafuso, certificados pela ANAC. Para isso, toda a fábrica muda. Desde o tipo de piso até a porca de um parafuso. Isso faz com que nossos aviões subam de patamar e sejam mais seguros e valorizados. Os ultraleves convencionais não são certificados. Todo este processo de homologação, é claro, terá um alto custo de investimento. Nós da Flyer estamos prevendo uma quantia de R$ 1,8 milhões apenas para realizar tais mudanças.

Como será a estrutura da nova fábrica? Terá muitas diferenças? Estamos fazendo os projetos. A planta ainda está em fase final, mas já temos a base pronta. A princípio a nova fábrica seria em Americana mesmo, mas já que vamos para Artur Nogueira, algumas mudanças vão ser feitas. No início estamos prevendo uma área construída de 7 mil m², mas queremos alcançar 20 mil m², que é a área do terreno cedido para nós. Ao fim do projeto. Não pretendemos construir tudo isso logo no começo por uma questão de demanda, mas aos poucos vamos expandir. O diferencial mesmo é que os padrões serão muito elevados logo no início. Hoje nossa fábrica é muito dividida. O almoxarifado fica num canto, a área de pintura fica em outro, a parte da montagem fica em outro. Isso tudo será bem diferente em Artur Nogueira. Lá, pretendemos compactar, ou seja, ter uma maior área construída, porém com mais agilidade. Isso significa que tudo dentro da fábrica será mais próximo, fazendo com que o processo seja mais bem feito, rápido e organizado.

De onde virá a mão de obra para a fábrica? Nós não temos planos de tirar nenhum de nossos funcionários, que são altamente treinados. Hoje temos poucos funcionários, mas como já mencionei, pretendemos expandir. E claro, com esta expansão, com toda certeza nós queremos funcionários que tenham maior facilidade de se deslocar para a empresa. Queremos contratar pessoas que morem em Artur Nogueira. É algo que facilita o processo e que será positivo tanto para nós quanto para o município.

É difícil obter capacitação? Nós prezamos pela capacitação de nossos funcionários. Dentro da própria Flyer nós temos um programa de capacitação que dura alguns meses. O profissional que desejar trabalhar conosco deve se preparar desde agora. Nossos funcionários atuais estão fazendo carreira aqui. Temos funcionários com até 25 anos de empresa. O jovem que ficou sabendo da vinda de nossa fábrica pode se preparar de várias formas diferentes, dependendo da área que ele quer atuar. Temos a área elétrica, onde engenheiros elétricos, formados ou cursando podem atuar. Também temos a área de pintura das aeronaves, que é possui muita demanda por falta de profissionais qualificados. Laminação, oficina mecânica como torneiros, montagem de motor e manutenção, seja qual for a especialidade. Engenharia Aeronáutica nem se fala. Aconselho os jovens que sonham em se envolver no trabalho de produção de aviões a começarem a se preparar desde já, por que daremos sempre prioridade a funcionários de Artur Nogueira. Sempre Artur Nogueira, desde que estejam capacitados.

É muito caro obter um avião? Não precisa ser milionário, até porque um milionário compra um jato e não um ultraleve. Um de nossos aviões, como todas as peças são importadas, é custeado em dólares. A única coisa tupiniquim, mas que faz toda a diferença, é a mão de obra, que é primorosa e de primeira qualidade. Um de nossos melhores aviões pode ser adquirido por 350 mil reais.

Qual a vantagem deste meio de transporte? Hoje em dia um empresário que precisa viajar não quer mais enfrentar o trânsito ou perder tempo na estrada. Tempo é dinheiro e, quanto mais economia, melhor. Um avião vai facilitar muito a vida destas pessoas e não precisa ser rico para isso. Se você comparar, um de nossos aviões pode ter seu preço comparado a um carro de luxo, que não oferece nada de diferente de um outro automóvel qualquer, diferente de um avião, por exemplo.

O que você tem a dizer sobre os aeródromos? Estes condomínios aeronáuticos, como o aeródromo que será construído em Artur Nogueira, são o futuro da aviação. Na verdade, gosto de dizer que já são o presente da aviação. O fato de você ter seu avião em sua própria garagem faz com que seja muito mais fácil de voar. Creio que no futuro, com o custo de produção de um avião ficando cada vez melhor, com nossa economia voltando a crescer, quase todos terão acesso a este meio de transporte que é maravilhoso.


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