15/10/2013

OPINIÃO: Dia do professor… Comemorar o quê?

Professor de Artur Nogueira comenta sobre a realidade dos profissionais da Educação no país

Por Luiz Augusto Rossi 

São anos de faculdade, trabalhos e muitos trabalhos, trabalhos extracurriculares, pesquisas, horas de pesquisa e sono perdido, estágios de 400 horas, o tão difícil TCC e finalmente estamos prontos. Viva! Começaremos a lecionar. E agora? Como funciona?

Entramos em um mundo novo, se prestarmos o raro concurso que o Estado oferece, seremos efetivos, com vários benefícios, senão, seremos categoria “O” com nenhum benefício. Pois é, somos colocados em categorias, não sabiam? Efetivo, F, S, V e O. Os professores efetivos e os categoria “F” têm as aulas atribuídas em sua própria escola sede, ou seja, onde ele recebeu o cargo. Já o professor categoria “O”, todo começo de ano tem que participar das atribuições na Diretoria de Ensino em que está inscrito, disputar por colocação. Colocação esta conseguida na prova anual que os professores desta categoria são obrigados a fazer todo mês de Dezembro. Um professor categoria “O”, ganha em média R$ 11 por hora aula (50 minutos) e não pode ministrar mais que 32 aulas semanais.

Chegou o grande dia, sala de aula. Entramos na sala de aula e nos deparamos com 42 alunos. Muito difícil. Se você dá atenção para os bons alunos, os bagunceiros destroem a sala. Se faz o contrário, os bons ficam sem matéria. Somos em sala mais mediadores de conflito do que professores. Muitos alunos por sala é sinal de descontrole. Se temos 6 alunos para instigar os demais, já está instaurada uma revolução interna. Se perder o controle, você jamais conseguirá dar aulas naquela sala.

Somos cobrados pela coordenação, direção e supervisão de ensino. Eles assistem nossas aulas e corrigem os procedimentos, normas, currículo e conduta em sala de aula. Preparação de aulas, reuniões, HTPCs, etc. A rotina não é leve. Muita cobrança. Temos que fazer cursos que, às vezes, são semipresenciais e estudar em casa, cumprindo as tarefas no computador por horas. Depois somos “convidados” a fazer uma pós-graduação oferecida pelo governo. Mais estudos! Mais cobranças! O dia normal do professor, teria que ter 64 horas e não 24, para dar conta de tantas exigências. Só cobranças e os salários baixos e sem nenhum benefício. Se ficar doente tem que avisar com uma semana de antecedência para que a escola possa encontrar um professor substituto para o seu lugar. Materiais usados para ilustrar as aulas são mapas antigos, revistas e livros já muito usados, que não mais prendem a atenção dos alunos. Como podemos ficar motivados?

Para comemorar o “Dia do Professor”, quero mais atenção para este profissional que forma pessoas, quero respeito por este profissional que está doente, perdendo sua saúde por desaforos e ameaças de muitos alunos que vão para a escola só por imposição das mães. Mães estas que nem se quer olham o caderno de seu filho e depois vem até o portão da escola ou em reuniões, dizer inverdades e defender a sua prole sem mesmo saber quem é o seu filho ou o que acontece dentro da sala de aula.

O professor está morrendo, entregando os pontos. Tenho pena, ainda, dos poucos “ótimos” alunos que deixamos em sala de aula. Os professores estão indo para a iniciativa privada. E eu não estou me referindo às escolas particulares, eles estão deixando o magistério e procurando emprego nas mais diversas áreas.

O professor não mais ministra aulas como antigamente. Não há respeito, dignidade e principalmente educação dentro das salas de aulas. Não há mais compromisso por parte de “muitos” alunos e de seus responsáveis. Não há mais acompanhamento familiar dentro das escolas e quando é marcada uma reunião de pais, só aparecem os responsáveis pelos bons alunos. Os responsáveis pelos bagunceiros e descompromissados nem ficam sabendo ou não vem para não ter que escutar as barbaridades que seus filhos fazem na escola. O professor está sempre errado… Nunca tem razão… Se não forem tomadas providências por parte dos governantes em caráter urgente, urgentíssimo, as aulas em um futuro próximo, serão ministradas em rede e não mais com o professor em sala.

Estamos tão preocupados com a extinção de várias espécies e não estamos vendo a extinção deste produto manipulado que é o Professor. A educação tem que ser revista e precisamos da ajuda dos políticos, vereadores, prefeitos, deputados, governadores, senadores e presidência da República que, miseravelmente, ano que vem lembram-se do Zé Povinho e do professorzinho e vem pedir nosso voto. Ou mudam as normas da EDUCAÇÃO ou ficarão sem esta ferramenta fundamental que é o professor. Esta ferramenta fundamental que está sendo usada como modelo para a campanha mentirosa de muitos políticos. Produto este, que recebe salários baixíssimos e bombas de gás. Profissional, este que está internado, tratando a depressão, a bursite, tendinite, o esgotamento e a loucura.

O que ainda nos torna fortes e nos permite continuar insistindo nessa profissão é continuar acreditando que tudo vai mudar e que um dia seremos valorizados. O que nos segura na educação são os bons pais e os bons alunos que nos enchem de orgulho. São nossos colegas de trabalho, guerreiros, que sempre tem um abraço e uma palavra de ânimo e encorajamento.

Isso que ainda mantém os poucos “professores” que restam. Professores mesmo! Comprometidos com a formação de seus alunos, brigando por situações melhores para eles também. Professores criativos que transformam a aula em um prazer e não em uma tortura. É por isso que ainda estamos aqui. Esta é minha opinião. Só quem está em sala de aulas segurando o giz sabe sobre o que estou falando. Abraços, professores guerreiros.

Dia do professor? Onde? Comemorar o quê?

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luiz rossi
Luiz Augusto Rossi
 é sociólogo e professor


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