07/06/2015

Moradora de Artur Nogueira cuida de mais de 30 gatos em casa

No Dia Mundial do Gato, relembra

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Por Isadora Stentzler

“Esse é o Pretão, o Ju, o Quico, o Fred, aquele é o Príncipe e aquela é a Boneca, está castrada”, começa a me apresentar dona Ana os primeiros cinco gatos que nos rodeiam quando entramos no viveiro de cinco por três metros construído para abrigar os mais de 30 gatos da costureira. “Começou com a Nina, mas ela morreu ano passado. O Nino é filho dela, olha só”, e chama de “bebê da mãe” um gato preto e branco, gordo, que anda atrás dela. Como ele, tem outros 15, ou mais. É que é difícil contar todos os parecidos dali. Tem o grupo dos pretos e brancos, dos malhados, cinzas, brancos e cinzas e um amarelinho. Para Ana não há mistério, a cada um que aparece chama pelo nome e faz um afago.

A primeira veio há seis anos. Era trigêmea, mas os outros dois da ninhada não sobreviveram depois que a mãe desapareceu. Aí Ana Maria Barbosa, mulher baixinha de cabelos escuros que acabara de ver o casamento da sua terceira filha acontecer, adotou a gatinha órfã. Primeiro improvisou uma mamadeira e depois foi dando os paninhos, ração e salsicha, conforme os dentes se fortaleciam. Por ser mansa, vivia junto com a costureira numa casa perto da zona rural de Artur Nogueira, com espaço e grama verde. A gatinha foi preenchendo Ana até a costureira descobrir ter todo amor do mundo pela felina. Os vizinhos também descobriram e começaram a lançar um, dois, três, quatro… gatos na casa da mulher de cabelos escuros. Que pegou para si o que os outros jogaram fora.

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“E assim foi indo. Hoje estou com todos esses. Como não são castrados eles se reproduzem. E entre castrar e dar comida eu prefiro dar comida.” Depois que a Nina morreu de ataque cardíaco no ano passado, aumentaram os bichanos para os 30 de agora. “Foram deixando lá na outra casa. Até que eu me mudei”.

Ana foi para uma casa de alvenaria no Jardim Rezek. Só para levar os gatos foram três viagens de carro. Os amigos ajudaram. Como os animais fazem parte da família não tinha como deixar para trás, e nesse grupo cabem até três cachorros. “Eles fazem mais barulho do que os gatos”, diz Ana que até entende quando os vizinhos reclamam do cheiro do espaço em que vivem os bichanos. “Mas está ficando melhor. Coloquei umas caixinhas para eles fazerem as necessidades ali e não no chão. Já ficou bom.”

Foi tudo improvisado nos fundos. Primeiro se construiu uma casinha com um telhado, onde  colocaram prateleiras e colchões para que os animais não ficassem sem abrigo nos dias de chuva. Um outro colchão foi colocado ao sol, em cima da casinha, criando dois ambientes para os animais – território bem disputado pelos 30 felinos. Ainda tem umas prateleiras, tábuas e tocos para eles subirem e descerem. Tudo cercado por tela.

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O ambiente é limpo todos dias, duas vezes. Dona Ana levanta lá pelas 6 horas. Toma café, seus remédios e depois alimenta e limpa a casa dos bichos. Como seu ateliê fica em casa, já está pronta para o trabalho. Enquanto isso solta do viveiro um ou dois gatos. Não todos. “Só para darem uma volta”, explica. Depois serve o almoço e à tarde faz a limpeza de novo.

Dessa rotina toda só há uma coisa que incomoda. “Eu consigo o saco de ração por uns R$ 70. Vai um por semana.” Para Ana é difícil ter o dinheiro para manter todos os gatos. Porque além da ração tem leite, remédios – quando ficam enfermos –, e comida. Até pensa em doar, mas não é uma decisão simples. “Tem as dificuldades e eu sei que seria melhor se cada um deles tivesse um único lar. Mas será que essa pessoa vai cuidar bem? Eu tenho medo.”

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Enquanto conversávamos um dos fundadores da Rede de Proteção Animal e Ambiental de Artur Nogueira (RPAA), Carlos Caressato, chegou com um saco de ração para gatos, de 25 quilos. Era para dona Ana.

“Esse saco aqui foi comprado com o dinheiro da arrecadação de latinhas”, explica Caressato. É que a ONG começou há um mês uma campanha para recolher latinhas de alumínio com a intenção de as revender e usar o dinheiro para comprar ração. O saco que foi dado à Ana na manhã de sexta-feira, dia 5, foi adquirido com esse recurso e arrancou sorrisos do rosto da costureira.

Caressato ainda frisou: “É bom falar na matéria que estamos recolhendo as latinhas na Feira Livre de domingo, na Microlins, no Açougue Cavis [próximo à Padaria Castelinho]”. E aí foi embora porque tinha mais ração para distribuir.

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Ana e eu voltamos para o viveiro. Ela fazia questão de dar atenção a todos os gatos. Falar do jeito de um, de outro. Contar dos que brigam. E até falar que já deslocou o pulso porque caiu de uma tábua quando foi tentar pegar um gato no alto. Mesmo a conversa era interrompida para chamar o Nino, a Boneca ou a Branquinha, que passavam entre as pernas e mantinham um miado fino como trilha sonora da entrevista. “Sabe, minha intenção nunca foi ter esse monte”, desabafa. “Mas foram deixando. Hoje eles são parte da família também. Eles são especiais. Só preciso ter condições para comprar ração.”

Quem quiser ajudar dona Ana a comprar ração, financiar castrações ou conseguir um lar responsável pode encontrar a costureira pelo telefone (19) 9 9341-2215. Ela agradece. E os 30 também.


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