16/04/2016

Morador de Artur Nogueira conta como superou a perda da visão aos 17 anos

ENTREVISTA: Luís Fernando Manarini perdeu a visão quando tinha apenas 17 anos. Mas não desistiu. Cursou Filosofia, construiu uma família e hoje vive em Artur Nogueira, uma cidade que poderia ser melhor adaptada para os deficientes visuais.

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Nascido e criado em Campinas-SP, Luís Fernando Manarini deixou de enxergar aos 17 anos, após bater a cabeça no para-brisa do carro ao se chocar num poste. Com a vida toda pela frente, Luís Fernando não se deixou abater. Ao invés de desistir de lutar pelos seus sonhos, fez justamente o contrário: se formou em Filosofia na Pontífice Universidade Católica (PUC) de Campinas, onde conheceu a esposa e mãe de sua filha. Morando em Artur Nogueira há um ano, ele fala sobre o início de tudo, desde a infância até o momento do acidente e de sua trajetória na difícil tarefa de se reconstruir do zero, provando que suas capacidades vão muito além do que seus olhos enxergam.

Como foi sua infância? Nasci e me criei em Campinas. Minha infância foi muito divertida. Como toda criança da época, brincava na rua, com brinquedos que nós mesmo inventávamos, já que carrinhos, bicicleta, televisão eram artigos de luxo. Éramos em sete irmãos e todos precisavam comer, estudar, se vestir. Com apenas meu pai trabalhando, era uma luta!

Você se formou no Senai aos 17 anos. Quais eram seus planos de vida? Minha formação no antigo primário e ginásio, foi na escola pública. Entrei no SENAI para cursar mecânica geral, posteriormente alistar na Marinha, ato contínuo ao diploma, porém sofri um acidente que ocasionou a perda de minhas vistas.

Como foi que o acidente afetou sua vida, num primeiro momento? Ah, Que fase! Tudo eram dúvidas! Aliás, não tinha ideia de onde recomeçar. Creio que num primeiro momento a Fé em Deus e minha família garantiram os passos iniciais à estabilidade espiritual, psicológica e física. Posteriormente, os amigos e a escola de reabilitação, com o que reaprendi a ler, caminhar, ou seja, retomar aos poucos minha vida social.

Nos conte sobre o processo de reabilitação após o acidente. No início foi bastante difícil, tendo que recomeçar em fases que já havia passado. O que me animava e não deixava desistir eram dois fortes motivos: Eu mesmo e minha família, que sempre apostou na minha capacidade.

Como foi este “recomeço de vida”? Percebi que para reintegrar-me a vida social, precisava retomar o rumo de um cidadão, ou seja, procurar um trabalho, o que foi um tanto difícil, visto minha instrução ser modesta. Desta forma retornei aos estudos no segundo grau e em seguida cursei Filosofia na PUC- Campinas.

Quando você passou a nutrir um interesse pela Filosofia? Sempre brinco que as mulheres alavancaram meu progresso, na figura de minha mãe, minha irmã, amigas e uma namorada que incentivou-me ao curso de Filosofia, já que eu demonstrava um forte interesse na área de humanas, como História e uma tendência ao questionamento sobre o ser, sua origem e as relações travadas com este mundo. Um fato curioso e que não posso deixar de mencionar, foi ter conhecido neste curso a minha esposa. Tivemos uma filha e, como natural, demos a ela o nome de Sofia.

Quais foram as maiores dificuldades no processo de realizar um curso superior com a falta da visão? O curso já é denso por natureza, mas os amigos tiveram o carinho devido, na gravação em áudio de textos, bem como nas derivações inerentes, pois acredito que sem eles, talvez não tivesse concluído, já que os próprios professores não acreditavam que eu retornasse ao final do primeiro semestre.

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Em 2010, você participou de um evento da ONU sobre deficiência realizado em Brasília. Qual foi o objetivo? O Brasil é signatário dessa Convenção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, através de aprovação no Parlamento Brasileiro, decreto 6.949, promulgado em 25 de agosto de 2009. O evento ocorreu com o objetivo de debater o impacto dessa Convenção no cenário brasileiro.

Por que você veio morar em Artur Nogueira? A decisão foi de ficarmos próximos da família de minha esposa, a qual possui raízes nesta localidade.

Ao chegar na cidade, quais foram as principais barreiras encontradas? A melhor maneira de mapear um lugar para um deficiente visual é caminhando, o que tenho feito com minha filha. Considero que ruas e avenidas apresenta problemas em calçadas, em dimensões, regularidades, bem como obstáculos. São problemas relacionados a história da cidade, talvez desde a concepção do projeto inicial.

Em sua opinião, o que deveria ser feito para mudar o cenário atual da cidade em relação a isso? Penso que a medida mais sensata não seria de emolir o que já é patrimônio do município, mas sim a identificação e possíveis adequações, evitando quanto puder o comprometimento de recursos, já que existem soluções que passam pela orientação da comunidade, sem impacto financeiro.

Você nota uma preocupação da população ou da própria administração do município em tomar certas medidas em benefício da população que sofre algum tipo de deficiência? A população sempre colabora com nossas dificuldades da forma que aprendeu, que é por demais saudável. Em relação ao poder público, temos assistido a transformação da cidade nas variadas áreas. Eu sempre apostei no diálogo e acredito que no assunto da Pessoa com Deficiência o carinho será idêntico. Nesse sentido manteremos contato com o Sr. Prefeito, o qual tem se mostrado bastante sensível, aos problemas atinentes a cidade, onde poderemos apresentar uma ideia de uma Artur Nogueira alinhada as cidades que já estabeleceram políticas públicas nessa área.


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