18/12/2018

Médico brasileiro formado em Cuba fala sobre Mais Médicos em Artur Nogueira

André de Lima Santos se formou em medicina pela Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), em Cuba, e atua há três anos no município nogueirense

Daniela Fernandes / Diego Faria

André de Lima Santos é brasileiro, nascido em Pariquera-Açu (SP), no litoral Sul do Estado e residia em Iguape (SP), na mesma região litorânea. Casado com Rocio Noemi Vila Romero, ele tem dois filhos: Emanuel, de três anos e, Efrain Joel, de quatro meses. Formado pela Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), Universidade de Ciências Médicas de Havana, em Cuba, desde 2007 e, com pós-graduação em médico da família pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ele atua há três anos em Artur Nogueira pelo Programa Mais Médico, do Governo Federal.

Nessa entrevista, André fala um pouco sobre a experiência de formação médica em Cuba, da inserção ao programa federal e os desafios da Saúde em Artur Nogueira.

   

André, conte sobre a sua história de formação no ramo da medicina e por que se interessou em ir para Cuba estudar. Minha origem é de uma família muito humilde. Se eu disser que eu tinha um sonho de estudar medicina, estou mentindo, porque isso não fazia parte da realidade que eu vivia no meu dia a dia. Mas depois de terminar o ensino médio, em maio de 2007 eu fui abençoado com uma bolsa de estudos integral para ir para fora do país estudar. Eu não tinha ainda uma profissão decidida, mas eu aceitei a bolsa e, foi então, que eu comecei a sonhar com uma universidade e com uma carreira. Até que decidi cursar medicina pela Universidade de Ciências Médicas de Havana, a ELAM, em Cuba.

O que você tem a dizer sobre a universidade em que estudou e a sua experiência como estudante em Cuba? Foi o melhor que poderia ter acontecido em minha vida. Cuba nos prepara não somente como um profissional, mas para a vida toda. Sair da proteção da família e ir para outro país, estudar um novo idioma estrangeiro e assumir uma carreira tão difícil como as ciências médicas, exigiu de mim muito sacrifício, determinação, perseverança e foco. Criei vínculos muito fortes com quem eu morei na república estudantil e nos consideramos como irmãos até hoje, afinal, foram sete anos juntos. São seis anos de estudo e um de preparação para o campo. Entre as modalidades de pré-médico haviam as matérias de matemática, química, bioquímica, biologia, também recebi aulas de espanhol, tudo isso para me preparar e entrar na carreira. Lá haviam estudantes de aproximadamente 20 nacionalidades, como chilenos, bolivianos, nicaraguenses, chineses, entre muitos outros. Foi na universidade também que conheci a minha esposa, Rocio Noemi, durante o 4º ano de estudos. Ela também se formou lá. Terminamos o curso e decidimos nos casar. Hoje temos dois filhos, o Emanuel, de três anos, natural do Peru e, Efrain Joel, de quatro meses, nascido no Brasil. Sou muito grato por tudo.

E depois de se formar, você regressou direto para o Brasil? Não. Eu permaneci em Cuba por sete anos, de 2007 a 2014. Depois de lá, eu fui para o Peru, onde eu residi por alguns meses e, então, voltei para o Brasil e me inscrevi para o Programa Mais Médicos como a minha primeira opção de trabalho.

Como e quando ocorreu a sua ingressão ao Programa Mais Médicos? Na época em que me formei e fui a campo, eu escolhi atuar no Mais Médicos e me cadastrei para o município de Arame, no Maranhão. Porém, a cidade enfrentou problemas ligados a corrupção, daí pediram para que eu escolhesse ouro região para trabalhar. Foi justamente nessa época, em junho de 2015, que abriram vagas aqui em Artur Nogueira, então, eu me candidatei e vim para cá.

O que você tem a dizer sobre o Programa Mais Médicos? Deu certo, tem muito ainda o que melhorar? É um ótimo programa. Hoje, como médico, eu posso dizer o que Brasil nunca teve tantos resultados positivos no ramo da Saúde como obteve através do Programa Mais Médicos, do Governo Federal. Por eu ter vindo de uma família pobre e humilde, conheço os desafios da Saúde. Eu costumo dizer que eu não conheço a Saúde somente pelo que me mostraram dentro da universidade, mas sim, a Saúde de meu país, na prática. Lembro de minha mãe dizer para mim quando eu ainda era pequeno: “meu filho, estamos sem médico no postinho, tomara que tenhamos médico na semana que vêm”. Essa é uma realidade em toda parte do Brasil. Todo médico sabe que existem problemas na Saúde que precisam ser resolvidos, por exemplo, a atenção terciária e as especialidades. Falar de especialidade no Brasil é um caso sério, existem poucos profissionais. No Programa Mais Médicos temos dificuldades pelo país todo, muitas vezes o paciente não tem um atendimento aprofundado pela falta de especialistas. E o programa, assim como a Saúde em todo o Brasil, tem esse desafio: oferecer a presença de mais especialistas.

Hoje você ainda está inserido no programa, tem a pretensão de deixá-lo? Não tenho a pretensão de deixar o programa, a não ser que eu tenha que me dedicar a alguma especialização ou residência médica. O salário é bom, a carga horária também. Seria uma arrogância minha criticar o programa, porque está dando certo, também tem muitos brasileiros estão se inscrevendo para essa nova fase.

Qual a sua especialidade aqui na cidade de Artur Nogueira? Eu atuo como clínico geral. Fiz também a pós-graduação em médico da família pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e, hoje, trabalho como médico da família em Artur Nogueira. Eu costumo atender no Posto de Saúde da Família (PSF) do bairro Coração Criança.

Como você enxerga a Saúde de Artur Nogueira? Assim como todos os municípios do Brasil, existem os desafios aqui também. Nosso país é de 3º mundo, mas com cobrança de 1º mundo. Acho que um grande desafio que enfrentamos aqui em Artur Nogueira é o de exercer a medicina de atenção primária mais abrangente. A população aqui é densa, e a nossa equipe precisa estar muito bem preparada. Pelo que vejo, não estão faltando profissionais, mas vejo que ainda pode melhorar nesse ponto. Não devemos nos contentar com o pouco, se está bom, devemos lutar para ficar ótimo, excelente, sempre melhorar. Assim como o Programa Mais Médicos, o município de Artur Nogueira terá sempre algo melhor a ser feito.

Você sente que está fazendo a diferença para o atendimento da Saúde de Artur Nogueira? Não posso me vangloriar e dizer isso por mim mesmo, prefiro ouvir o que as pessoas dizem sobre o meu trabalho. Fico muito feliz quando encontro com as pessoas nas ruas, ou no mercado e, alguém me cumprimenta e me agradece por algum atendimento que fiz no posto ou a domicílio. Esse reconhecimento é para mim o que me garante que estou fazendo um bom trabalho. Além disso, existem também muitos outros bons profissionais atuando comigo na cidade.

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