21/02/2015

ENTREVISTA: Dr. Zildomar Deucher

Ele tem mais de 80 anos de idade e ainda faz questão de trabalhar no Bom Samaritano, hospital que construiu com a família em Artur Nogueira. Com 55 anos de carreira, ele já realizou mais de 14 mil cirurgias cardíacas, boa parte delas em crianças. Conheça a história do cirurgião que estudou na Argentina e nos Estados Unidos e escolheu o município ‘Berço da Amizade’ para realizar um sonho.

capa2“Um bom hospital é a maior bênção que uma cidade pode ter” (Dr. Zildomar Deucher)

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Por Alex Bússulo

“Estou aqui no hospital há 36 horas. Cheguei ontem de manhã e estou aqui até agora”, afirma o cirurgião de cabelos brancos. Dr. Zildomar Deucher tem 81 anos de idade, 55 trabalhando como médico. Sentado atrás de sua mesa, ele recorda como iniciou a trajetória na medicina e como teve a coragem de construir o Hospital Bom Samaritano 12 anos atrás no município.

Com a idade ele acumulou muitas histórias. Nascido em uma pequena cidade de Santa Catarina, ele se formou em Medicina em Buenos Aires, na Argentina, fez pós-graduação em uma universidade nos Estados Unidos e se tornou um dos primeiros cirurgiões cardíacos da região Norte do Brasil. No Rio de Janeiro foi considerado um dos pioneiros em cirurgias de coração de bebês.

Em mais de cinco décadas de trabalho e dedicação, Dr. Zildomar calcula já ter feito mais de 14 mil cirurgias cardíacas. Foi diretor de importantes hospitais do Brasil e hoje ainda continua a frente do hospital que construiu em Artur Nogueira. Noite sim, noite não, faz plantão. Passa praticamente a madrugada toda atendendo os pacientes nogueirenses.

E como ele é atencioso. Gosta de conversar. De ouvir os pacientes. Põe a mão, sente. É um médico humano, acima de tudo. Na entrevista desta semana o Portal Nogueirense ouve esse médico que já viajou o mundo e hoje é tido como referência e exemplo.

Zildomar Deucher nasceu em Bom Retiro, Santa Catarina. No início, a mãe era dona de casa e o pai tropeiro. “Meu pai viajava levando gado. Comprava e vendia bois. E eu adorava ir com ele. Tinha jeito pra coisa. Com cinco anos de idade sabia montar a cavalo como ninguém”, relembra.

Quando ele tinha seis anos, os pais se separaram. Zildomar continuou morando com o pai. A mãe se mudou para Florianópolis, onde cursou Enfermagem. “Minha mãe se tornou uma grande enfermeira. Era reconhecida e admirada pelo talento que tinha. Nas minhas férias ia passar os dias com ela. E ela me levava no hospital onde trabalhava. Eu adorava ver tudo aquilo. Quando voltava para a casa do meu pai pegava as bonecas das minhas primas e brincava de médico. Pegava um lenço, colocava no rosto e abria as barrigas das bonecas. Na minha cabeça eu já era um cirurgião. Minhas primas ficavam muito bravas, claro.”

Na infância e na adolescência, Zildomar sempre estudou em colégios adventistas. A Igreja Adventista do Sétimo Dia esteve presente desde o início da vida do médico.

Quando estava no colegial, ele foi destaque no esporte. Praticava o decatlo, aquela modalidade composta por dez provas de atletismo. “Modestamente falando, eu sempre fui um ótimo atleta. Sempre gostei muito de esportes. Participei da Seleção Catarinense de Vôlei no Campeonato Brasileiro de 1952. Conquistei muitas medalhas de ouro”, conta.

Depois de alguns anos, a mãe de Zildomar se mudou para a Argentina e o convidou para estudar Medicina no país. “Naquela época a Argentina estava muito rica. Atraiu muitas pessoas de vários países. A Argentina liderava a América do Sul. Estava bem à frente do Brasil. Quando eu tinha 18 anos minha mãe me convidou para ir morar com ela. Eu queria estudar Medicina e lá era a melhor opção na época. Fui para a Faculdade Nacional de Buenos Aires, hoje conhecida como UBA”, relembra.

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Foram oito anos de muito estudo e dedicação. “Fui um aluno muito dedicado e segui aquilo que gostava. Minha tendência desde pequenininho, quando cortava as bonecas, era as cirurgias [risos]. Então, onde tinha cirurgia eu ia. Me oferecia para ajudar os professores cirurgiões. Era algo que me encantava.”

O talento do jovem cirurgião chamava a atenção. “Quando terminei a faculdade fui para um hospital na Argentina, que hoje é uma universidade, como cirurgião, fazendo a residência. Quando eu terminei o primeiro ano de residência, o diretor do hospital e os professores de duas equipes de cirurgia me chamaram e disseram que eu deveria formar a terceira equipe de cirurgia do hospital. Eu disse ‘mas como, eu sou residente?’. Aquilo significava que um ano após terminar a faculdade eu já era chefe de uma equipe de cirurgia. Eu tinha tanta responsabilidade que quando o próprio administrador do hospital teve que operar o rim dele ele escolheu que eu fizesse a cirurgia.”

Depois de dois anos Zildomar foi convidado para ser diretor de um hospital no Belém do Pará, que estava para fechar. Era um hospital da Igreja Adventista. Ele chegou e reergueu o local. Reestruturou a equipe médica e tornou o hospital referência.

Ainda em Belém, ele se recorda de uma situação que jamais sairá da memória: quando teve que fazer uma cirurgia em cima de uma lancha. Naquela época existia um projeto chamado ‘Lancha Luzeiro’, que levava educação sanitária e assistência médica às populações ribeirinhas carentes do Amazonas. E o Dr. Zildomar fez questão de participar de uma das missões. Foi como um acompanhante, mais para assistir como o projeto era desenvolvido.

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Na lancha estavam alguns enfermeiros e um casal de jornalistas da Revista Image, dos Estados Unidos, que cobria a expedição. “Quando estávamos no alto do Rio Juruá, a três dias e três noites de viagem, em uma cidadezinha que nem hospital tinha, uma mulher chegou procurando por ajuda. Ela era uma professora e estava com a apendicite quase estourada, um caso muito grave. Quando examinei a moça cheguei à conclusão de que ela precisava ser operada o mais rápido possível. Não tínhamos equipamentos, nem exames. Era no toque, na história clínica.”

Dr. Zildomar relembra que havia levado apenas uma pequena caixinha de instrumentos com uma tesoura, duas pinças e alguns curativos. “Era apenas o básico. No convés da lancha montei uma mesa. Os índios estavam na ribeirinha do rio, só observando. Fervemos lençóis e panos em uma panela de pressão, para esterilizar. A cirurgia foi realizada e graças a Deus saiu tudo bem. Depois de três dias a mulher estava andando normalmente. Como os jornalistas nos acompanharam, o fato virou uma bela reportagem na Revista Image e circulou por vários países. Foi uma experiência inesquecível”, relembra.

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Depois de 10 anos a frente do hospital de Belém, Dr. Zildomar foi estudar nos Estados Unidos. Ele tinha 38 anos e queria se especializar em cirurgias cardíacas. “Fiquei lá por dois anos e voltei como cirurgião cardíaco. Fui um dos pioneiros em cirurgias do coração no Norte do país. Não havia 100 cirurgiões cardíacos no Brasil naquela época. As cirurgias no coração tiveram início na década de 50. Quando eu estava na faculdade era uma coisa quase impossível para ser realizada.”

Em 1971 ele foi chamado para ser diretor de um hospital no Rio de Janeiro e foi lá que ele se dedicou a realizar cirurgias cardíacas em crianças. Ele também operava adultos, mas a grande maioria era recém-nascidos.

“Sempre trabalhei com a parte mais complexa da Medicina. Fui um dos primeiros cirurgiões no Brasil a operar recém-nascidos, de três, quatro quilos. Com hipotermia profunda, parada total da circulação. Congelava a criança, parava o coração, parava tudo, para abrir um coraçãozinho deste tamanho [faz um gesto com os dedos ilustrando a medida do coração], e consertava lá dentro o que estava errado. Fiz muito isso. Era uma cirurgia rara. No Rio de Janeiro cheguei a ser o cirurgião que mais operava crianças. A cirurgia da criança é mais complexa. Abrir o peito de um bebê é extremamente delicado. E eu fazia. Não faço ideia de quantas crianças operei, mas sei que foram muitas.”

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A ideia de construir o Hospital Bom Samaritano em Artur Nogueira nasceu junto com a filha, Dra. Liliana, e o genro, Dr. Sidney Dutra. “Eu já tinha quase 70 anos. Morava no Rio de Janeiro. Naquela época eu era um homem rico. Ganhei muito dinheiro como cirurgião. Tinha vários apartamentos na orla do Rio de Janeiro. Minha filha e meu genro escolheram Artur Nogueira para morar e educar os três filhos. Vieram para cá devido à localização do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). E eu costumava vir aqui com certa frequência para visitá-los. O Sidney era reitor de uma universidade e juntos decidimos construir um hospital nesta cidade. Foi uma loucura. Eu era um sonhador da Medicina e queria idealizar um hospital de qualidade.”

O Bom Samaritano foi inaugurado em 11 de novembro de 2002, no dia do aniversário de 69 anos de Zildomar. “Construímos o hospital em apenas um ano. O terreno na época era barato. Juntamos nossas economias, pegamos um empréstimo no banco e construímos. Há 12 anos a realidade da cidade era bem diferente. Só tinha a Teka como indústria forte mesmo. Vendi alguns apartamentos que eu tinha, outros o banco tomou para cobri dívidas do hospital. Eu quis manter aqui a alta Medicina e isso me custou um preço.”

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Durante a entrevista, Dr. Zildomar diz que não se arrepende, mas que se pudesse voltar atrás talvez fizesse as coisas um pouco diferente. “Talvez não fosse tão afoito em pegar dinheiro a juros altos para manter uma coisa que não era viável. Talvez devesse ter começado menor. O projeto inicial do hospital era de dois mil metros quadrados. Mas terminou com mais de quatro mil! Eu acho que o povo um dia vai reconhecer. Não é possível que não reconheça. Afinal de contas salvamos muitas vidas aqui. Valeu muito a pena estar aqui. Milhares de pessoas foram atendidas, muitas pessoas foram salvas porque estávamos aqui. Muitas pessoas que sofreram infartos e foram salvas porque tiveram um bom atendimento aqui”, afirma.

Dr. Zildomar diz que o Brasil precisa valorizar mais a Saúde. “Eu sei que a Medicina está uma bagunça no país inteiro. Mas tem que se criar centros. O governo teria que apoiar. Para se ter recursos. Um bom hospital é a maior bênção que uma cidade pode ter.”

Questionado se já pensou em fechar o hospital, o médico responde: “Uma vez nós queríamos vender, mas sempre foi uma decisão que nunca me agradou, porque eu sei que o hospital não iria para frente nas mãos de outros. Porque comigo, dedicado como sou, que não ganha nada, já é difícil. Imagina com outro. Eu não ganho nada para trabalhar aqui. Vivo de alguns alugueis. Não é grande coisa, mas dá pra viver. Eu não gasto muito. Tenho mais roupa que consigo vestir, mais sapatos que consigo calçar. Não como mais porque é contra a minha saúde [risos]”.

Mesmo com 81 anos, Zildomar mantem uma rotina agitada no hospital. “Costumo chegar aqui às 9 horas da manhã. Fico o dia todo. Noite sim, noite não, por agora, devido à escassez de dinheiro, faço plantão noturno. Durmo aqui no hospital, tenho um quarto aqui. Eu e a minha filha, Dra. Liliana, revezamos os plantões, noite eu, noite ela. Eu não tenho insônia. Durmo muito fácil.”

É por isso que a ideia de parar não anda longe, mas a explicação vem com um sorriso: “Penso. Eu tenho que parar. Eu acho que devo fazer menos plantões noturnos, são cansativos. Nesta madrugada eu fui me deitar às 3h30. Levantei às 4h e depois às 5h para atender pacientes. Mas eu me sinto bem. Tenho uma boa saúde e muita disposição. Graças a Deus. Mas talvez seja bom diminuir o ritmo. Já tive um câncer de intestino. Há sete anos. Fui operado. Como o câncer estava no início, me recuperei bem e graças a Deus estou aqui. E ainda faço as cirurgias!”.

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A última pergunta da entrevista toma um tom sério e a resposta vem em forma de crítica. Sobre o que é ser um bom médico, Zildomar diz: “Primeiro, ele tem que ser humano. Porque a Medicina é tão trabalhosa, tão sofrida. Você vê o paciente sofrendo, morrendo e tem que olhar para ele e dar esperança a ele. Você tem que ser humano. Tem que ser carinhoso. Não pode ter pavor de doente. Meu doente eu toco, pego. Tem médico que não. Todo paciente que eu atendo eu ponho a mão, escuto o coração, procuro não dar chance do doente ter algum mal e eu, pela minha negligencia, não tenha feito minha parte”.

Dr. Zildomar relembra de um paciente que o procurou há uns três anos. “Chegou aqui em meu consultório um homem se queixando de dores na barriga. Ele disse que já vinha sofrendo há algum tempo e que já tinha se consultado com outros quatro médicos. Uma dor muito forte que aparecia frequentemente. Pedi a ele que deitasse na cama para examiná-lo. Quando disse isso ele até se assustou: ‘Me examinar?’. Simplesmente coloquei a mão na barriga dele, apalpei e descobri um tumor do tamanho de uma laranja. Que qualquer estudante de Medicina do terceiro ano ao fazer esse exame descobriria. Apalpei e percebi que o tumor estava móvel no intestino, bom para operar. Quando terminei o exame ele me olhou e disse: ‘Doutor, o senhor foi o único médico que botou a mão na minha barriga. Os outros nem olharam. Pediam para tomar Buscopan que ia passar’. Depois ele foi submetido à cirurgia e hoje está bem por aí. Se eu fosse um médico negligente eu não teria descoberto aquele tumor. Ser médico é se sacrificar. Você só pode ser um bom médico estudando muito, vivendo muito aquilo que escolheu”, conclui.

O cirurgião mora em Artur Nogueira com a esposa Eliacibe. Além de Liliana, ele tem outros dois filhos, a Suzana e o Zildomar Júnior – todos médicos reconhecidos dentro e fora do Brasil.


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