25/10/2014

ENTREVISTA: Zeno Capato Filho

Músico e empresário nogueirense fala sobre o sucesso da Aphocalipse Banda Show, que já viajou todo o Brasil fazendo shows e hoje anima o bailão da Expo Artur

capa3“A Aphocalipse é a primeira banda a fazer música country no Brasil”

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Isadora Stentzler

Zeno Capato Filho tem 52 anos e há quase três décadas está à frente da Aphocalipse Banda Show, banda com estilo country americano que anima todas as noites o bailão da Expo Artur.

Nascido em Artur Nogueira, Zeno demonstrou gosto pela música na infância, quando via o pai tocar violão e banjo. Dessa influência tirou uma das suas profissões: a de músico, porque além dela carrega o diploma conquistado nos anos 80, na Suíça, de Mecânica Eletrônica.

Mais tarde, tornou-se empresário e criou a banda Apocalipse, uma ramificação da Phorma Som que ele já conduzia em 1984, tornando-se referência da música country nas festas de rodeio do Brasil.

De opiniões fortes, mas com uma conversa leve e tranquila, ele concede esta entrevista na carreta/ palco da banda. Ali, Zeno fala de nomes consagrados do country americano e critica a música atual. “Infelizmente o funk e o sertanejo universitário transformaram a mulher no pior objeto que poderia existir nas letras de músicas deles. Não tem mais aquele romantismo, aquele verso bonito, aquela poesia.”

O músico também relembra a velha guarda da Aphocalipse, fala dos planos de lançar um CD em abril e sobre a relação com o irmão, prefeito Celso Capato, e diz o que pensa sobre machismo no rodeio. “Então, as mulheres podem olhar ele [cowboy] como machista e coisa e tal. Mas ele é um homem comum, ele também tem sua família, ele também sabe cuidar da esposa, do filho e tudo mais.”

Zeno, você começou no universo na música com quantos anos? Bom, eu toco violão desde os nove anos de idade. Mas comecei na música mesmo, com banda, aos 24 anos. Na minha casa nós somos em oito irmãos e meu pai era músico. Ele tocava violão e banjo e eu vendo o meu pai tocar aprendi as primeiras posições, e assim foi. Hoje dos oito irmãos o único músico sou eu.

E como foi a formação do Aphocalipse Banda Show? A formação da banda Aphocalipse começou em 1984, quando a gente ainda estava junto com o Phorma Som, que era eu, o Arnaldo Janiak, o Luisão Fonseca, o Amarildo de Sá, o Reinaldo lá de Cosmópolis, o África… uma galerinha que a gente tocava junto. Depois a gente se dividiu, naquele mesmo ano, e eu continuei sozinho, pra frente, tocando e então formei a banda Aphocalipse. No início, uns seis meses, ela teve o nome de Novo Estilo, até se concretizar Aphocalipse mesmo. Então, a partir do ano de 85, a banda se consagrou tocando em muitos lugares. Tocamos em muitos clubes, muitas festas e foi onde eu enxerguei a necessidade do country americano na música, que era uma coisa que faltava. Então tive a ideia de fazer o country americano para incluir também nas festas de rodeio. E na época só existiam duas festas de rodeio, que era Barretos e Tujuguaba. E a gente começou a fazer Tujuguaba e ter sucesso. Então a gente começou já a fazer as grandes festas como Jaguariúna e Americana. Em Americana ficou tocando por 16 anos só a banda Aphocalipse. Jaguariúna também, em mais de 16 anos. Hoje a gente não toca mais nessas festas porque hoje quem faz os bailões são as rádios, e as rádios querem que a gente toque de graça, e de graça eu não vou tocar de jeito nenhum.

Mas, então, quando vocês começaram a banda não era country? Não. No início a gente era uma banda de rock nacional. Depois que eu parti para esse lado [do country]. Inclusive sou pioneiro de banda country no Brasil. A Aphocalipse é a primeira banda a fazer música country no Brasil. Depois da gente surgiram muitas bandas de música country. Mas também foram embora. A única que continua é a nossa.

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Bacana. E vocês já viajaram o Brasil todo tocando. Como é a turnê de vocês? Olha, a turnê que a gente faz começa nas festas tradicionais – festa tradicional que eu falo são aquelas que mantêm a festa do rodeio do jeito que é, e também mantêm a tradição da galera do chapéu, do peão, do country americano – que é a Expo Guaçu, Bragança Paulista… e uma infinidade de festas que começam no início do ano e daí pra frente não para mais.

E quantas cidades brasileiras vocês já passaram? Tem como mensurar? Olha, em festas do Brasil, não teve festa que a gente não fez. Todas as cidades que você já ouviu falar de festa de rodeio eu já estive lá. Ao menos uma vez.

Cite algumas… De longínquo, vamos falar de Paranaíba, Mato Grosso, Aparecida do Tabuado, pro lado de Minas tem Varginha, Belo Horizonte, pro lado do Paraná tem a região de Curitiba… enfim, a gente já viajou quase o Brasil todo. Mas o estado de São Paulo inteiro e o sul de minas é o forte nosso.

Vocês são conhecidos também como os “Reis do Country Americano”. Como veio esse título? Esse título veio porque quando a gente pensou em fazer esse tipo de baile, logicamente eu tive que ir atrás e procurar músicas. Naquele tempo só existia Willie Nelson. Então eu comecei a ir atrás de músicas e descobri Shania Twain, Alan Jackson e Alabama para tocar. Então fui eu quem introduziu essas músicas no Brasil e nos rodeios brasileiros. Então quando o nego fala: “Ow, vai ter um show country lá. Se não for Aphocalipsy…” Entendeu!? É a marca do rodeio e a marca do country. Tem quem tenta fazer, mas não é a mesma coisa. Porque a gente já tem aquela tradição.

E como funcionam os ensaios da banda para o preparo de um show, como a Expor Artur, por exemplo? Olha, a banda quase não ensaia, porque a gente sai de um show e vai para o outro. A gente saiu de Minas Gerais – porque a gente estava em Conceição dos Ouros essa semana – no domingo de madrugada e já chegou aqui na segunda. Hoje [quarta-feira] já está montado os instrumentos aqui na Expo Artur. Então a banda está sempre ensaiada. Sempre trocam os músicos. Mas eu, que sou o cabeça da banda, mantenho as músicas e mantenho a banda ensaiada do jeito que tem que ser. Do jeito que eu quero realmente.

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Você é músico e empresário da banda. O que te apaixona mais? Sinceramente, os dois. Tudo o que eu aprendi na vida eu gosto. Realmente tudo o que eu me propus a fazer, fiz bem e gosto. Lógico que hoje a música me toma todo o tempo, né, mas o que realmente eu gosto mais e que eu tenho que fazer é a música.

Com tudo isso, como você administra seu tempo, sua rotina? A minha rotina é assim: durante a semana eu também tenho que descansar um pouco, porque também não é fácil. Nos finais de semana geralmente a gente está tocando, viajando, montando, desmontando, preparando. E, enfim, é sempre assim. Se tornou quase, não vou dizer um vício mas, uma coisa que você já sabe o que fazer, né.

Você acredita que a banda passou por algum momento que ajudou a propulsionar a carreira? Um momento marcante? Olha, os momentos marcantes que a gente teve, até hoje na vida, foram a realização de grandes eventos. A gente teve o prazer de tocar para 40, 50 mil pessoas. Isso no auge da festa de Americana. Porque hoje a festa de Americana também está um pouco pra lá. Mas eu tive o prazer de tocar anos e anos seguidos. Jaguariúna toquei pra mais de 20, 30 mil pessoas. Então posso dizer que em termos de banda nós atingimos essa meta. E outra meta que a gente também tem alcançada é o tempo em evidencia. É difícil você ouvir falar de uma banda que tem 30 anos em evidencia e tocando! E tocando continuamente. Existem muitas bandas. Mas para, muda o nome, vai pra lá, vai pra cá, e a Aphocalipse não. A Aphocalipse continua. Nós temos pessoas que eram jovens e curtiam o baile do Aphocalipse e que conheceram seus pares em bailes do Aphocalipse. Pessoas que casaram, tiveram filhos e hoje nós já temos até a terceira geração dessas pessoas já vindo em show. Isto é: com os pais e as mães junto.

Então já tem um público consolidado? Ah, com certeza. Esses dias estivemos em Paulínia num encontro de comitivas, da Rádio Iguatemi, e era domingo e de dia e tinha mais de 2 mil pessoas. E foi um evento que reuniu muito da velha guarda do pessoal que curtia o country americano. Vi ali pessoas que já não via a muitos anos, que até eu disse: eu nunca ganhei tantos beijos e abraços, tanto de homem como de mulher. Porque são pessoas que querem a gente bem, tem afeto, tem carinho… um carinho de fã.

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Falando agora sobre a Expo Artur, como é para a banda que participou desde a primeira Expo Artur continuar tocando no evento até agora? Causa uma nostalgia? Olha, a Expo Artur é uma festa que, sem dúvida, é muito bem realizada e causa, como você falou, nostalgia. De um ano para o outro já vem essa nostalgia. Porque termina um ano e já se quer o outro. É uma festa gostosa em que todo mundo gostaria de estar, realmente, fazendo um trabalho. Hoje a gente conseguiu fazer o trabalho da Expo Artur, não só os músicos do Apocalipse, mas também muitos músicos de Artur Nogueira, que também estão tocando. Então pra mim é uma satisfação muito grande estar tocando aqui, do lado country, porque sou o único nisso, e um espaço de sertanejo para outras pessoas também de Artur. Então muita gente se realiza com a festa de Artur Nogueira.

E quanto você acha que a Aphocalipse evoluiu desde a primeira Expo? Olha, a evolução do Aphocalipse da primeira Expo Artur até agora foi nos novos equipamentos, novos investimentos… mas a evolução musical é uma coisa que eu não posso mudar muito porque nós somos tradicionais aqui, então eu não posso mudar o repertório do country americano pra começar tocar rock, por exemplo. Então a evolução se dá, vamos supor, quando sai uma música nova e a gente começa a tocar, entendeu!? Há evolução, vamos supor, com a juventude nova que está na banda. Porque vai entrando uns e saindo outros, outros vão desistindo. Já passaram cerca de 30 músicos na nossa banda. E eu me sinto realizado com isso, de ver as passagens das pessoas que já estiveram aqui e fizeram um bom trabalho.

A Aphocalypse Banda Show conta com qual repertório hoje? O nosso repertório continua o mesmo. Vamos supor uma festa, ali a gente faz uma hora de country americano e uma hora de sertanejo também. Porque o sertanejo também é a nossa música country, é brasileira, mas não deixa de ser a nossa música country.

Tem músicas próprias? Nós temos músicas nossas e tem as músicas cover que fazemos.

Mas tem alguma composta por vocês? Que são compostas por nós? Olha, nós temos, mas não está gravada em CD, ainda.

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Dá para falar o nome de alguma ou cantar um trecho? Eu tenho, inclusive estamos preparando o disco, mas eu quero deixar surpresa pra vocês pra hora que lançar vocês verem.

Então há a previsão de lançar um CD… Tem! Inclusive vai sair no próximo mês o Clube do Country que nós estamos fazendo. Antigamente existia o Clube da Viola, agora vai ter o Clube do Country. Serão vários artistas juntos na apresentação de um grande show que vai incluir também a viola caipira. Isso a partir do ano que vem.

Mas sobre o CD, em qual mês ele pode ser lançado? Olha, nós estamos pensando o CD para mais ou menos o mês de abril por aí.

Agora vamos falar um pouquinho sobre música. O Country é um estilo norte americano que se consolidou no Brasil com Bob Nelson na década de 60. Como você vê a aceitação desse estilo aqui na região? Olha, você sabe que na música tudo tem época. Teve época em que as pessoas gostavam de lambada, de rock, de sertanejo, de samba – quando entrou na época do sambanejo com o Raça Negra – e do rock da década de 80 – nos anos 2004, por aí –, mas o country americano é a base de tudo. É um ritmo gostoso de dançar, não é uma música estridente para o ouvido. É uma música gostosa. E para os músicos existe também uma técnica. Porque o músico de country americano tem que ser um músico limpo, e eu digo limpo no sentido musical, não como o guitarrista que faz um som de rock com o pampam, que é aquela distorção. Então é preciso tirar um som limpo da guitarra, que é muito mais difícil. Por isso os grandes músicos consagrados nos Estados Unidos são os de country americano – que vieram também do rock and roll e do blues e se aperfeiçoaram para tocar o country americano. Que nem, se eu falar hoje sobre Alan Jackson, George Strait… e, puta merda, são tantos nomes que chega uma hora que se esquece… mas são músicos com músicas perfeitas. E o público americano e o público brasileiro também aprendeu a gostar da música, porque realmente é uma música que tem melodia e um ritmo gostoso que qualquer um dança. Então o country americano é uma coisa sadia e legal.

Com a ascensão do sertanejo universitário no Brasil, a música country também mudou um pouco, recebendo a inserção de outros ritmos. Você acha isso uma perversão do estilo country? É, porque a música sertaneja brasileira, na verdade esse tal de sertanejo universitário que muita gente fala, em que o próprio nome mostra que até agora não se formou, é uma coisa ruim. O que que acontece, a música sertaneja em si não tem mais. O que existe são pessoas fazendo músicas denegrindo a imagem da mulher totalmente. A mulher está ali só para abaixar, mostrar a bunda, sentar, bate aqui, bate lá, sua cachorra, sua sem vergonha… então  denegrindo tanto a imagem da pessoa, que as vezes eu imagino: cadê aquela entidade que cuida da mulher? A delegacia da mulher? Porque isso aí é denegrir a imagem da pessoa. Agora, o country americano não faz isso. Em primeiro lugar, porque o americano não tem essa imoralidade para estar fazendo esse tipo de coisa. Em segundo lugar porque a moral e a família prevalecem nesses países. Mas aqui no Brasil infelizmente é assim. Mas isso é tudo passageiro. Você vai ver que daqui alguns anos isso não vai existir mais. A gente já ta vendo muitas duplas aí que fazem sucesso só seis meses com uma música, e dali seis meses ninguém mais quer ouvir falar. Então infelizmente o funk e o sertanejo universitário transformaram a mulher no pior objeto que poderia existir nas letras de músicas deles. Não tem mais aquele romantismo, aquele verso bonito, aquela poesia. Então os grandes poetas já morreram, ficou aquela porcaria que agora a gente é obrigado a escutar. Mas eu, como estou na música há muitos anos, sei que muda, eu sei que acaba, que uma hora o povo para de ouvir essas coisas.

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Qual o espaço da mulher dentro do universo country? Olha, o espaço da mulher é grande. Principalmente nos Estados Unidos, onde se tem muitas estrelas do country. Muitas cantoras maravilhosas, que cantam e tocam todos os instrumentos, inclusive o banjo. Um exemplo é a Shania Twain, entendeu? E todas as mulheres que cantam country nos Estados Unidos são consagradas. Mas algumas que cantam essas baladinhas pops, tipo Shakira, tipo Beyoncé, ficam no passado. Daqui uns dias ninguém lembra mais. Agora essas pessoas que se consagraram vão ficar para sempre.

A Aphocalipse tem repertório com a presença feminina? Sim. Inclusive no sábado vai ter nossa Shania Twain cover aqui, cantando as músicas da Shania. Ela sempre cantou, mas com o trabalho dela ela não pode vir em outros dias, mas no sábado ela estará aqui fazendo apresentação e todo mundo, com certeza, vai gostar de ver ela aqui.

Só mais uma pergunta, Zeno, você também é irmão do prefeito da cidade. Isso pode ter ajudado no sucesso da banda Aphocalipse nos últimos tempos?  Olha, a política e a música não se misturam. Eu posso dizer para você que a gente anda em lados opostos. Então não tem nada a ver. O sucesso do meu irmão é na política. Mas na música, se você não for talentoso, não adianta. Não adianta ninguém querer te ajudar, não adianta você ir na televisão, não adianta nada. Tem que ter um talento natural. E graças a Deus, antes do meu irmão se tornar um prefeito, um político, eu já estava na carreira e bem sucedido, entendeu!? Não adianta meu irmão subir em um palanque e falar: “Oh, o meu irmão é o maior sucesso do Brasil”. E depois chegar lá e fazer uma má apresentação, não adianta. É a mesma coisa que eu subir em um palanque e falar: “Oh, meu irmão é o melhor político do Brasil”. De repente ele não faz uma boa apresentação, uma boa administração na política, também não adianta nada, entendeu?


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