28/02/2015

ENTREVISTA: Valéria de Souza Cruz

Psicóloga de Artur Nogueira explica o que é depressão e como lidar com essa doença que atinge cada dia mais pessoas

capa2“Acredito que 48% da população de Artur Nogueira sofra de algum tipo de depressão e nem metade tem consciência da doença” (Valéria de Souza Cruz)

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Alex Bússulo

Em um período de 5 anos, a Organização Mundial da Saúde estima que a depressão será a segunda colocada entre as principais causas de incapacidade para o trabalho no mundo. Uma doença que não escolhe sexo, classe social, muito menos idade.

Para explicar sobre essa doença, que afeta milhões de pessoas, conversamos nesta semana com a psicóloga Valéria de Souza Cruz.

Nascida em Alfenas/MG, Valéria sempre teve aptidão para ouvir os problemas das pessoas a sua volta. Em busca de um ideal de vida mais sublime, quando tinha 17 anos, decidiu entrar para a Ordem Religiosa Franciscana, um convento localizado em São Paulo. Lá ela estudou Filosofia e Teologia. Como freira, deu aulas para jovens e crianças. Com o trabalho missionário, viajou todo o Brasil visitando e desenvolvendo atividades em escolas.

Após 11 anos, ela deixou o convento. Fez graduação em Psicologia. Depois se especializou em Psicologia Analítica e Junguiana, além de outra especialização em Psicossomática. Também fez MBA em Gestão de Saúde Coletiva e Políticas Públicas e uma formação em Danças Circulares Sagradas.

Valéria chegou a Artur Nogueira em 2002, após passar em primeiro lugar no concurso público para psicóloga. Inicialmente, atendeu no projeto social do Sítio do Pica Pau Amarelo e depois no Centro de Especialidades no Itamaraty. Em seguida foi convidada para trabalhar como gestora de educação permanente em Saúde na Secretaria Municipal. A liderança e competência na área lhe permitiu ser diretora do departamento da Promoção Social, cargo que ocupou até ser convidada para assumir a Secretaria de Saúde, ficando por dois anos.

Depois se dedicou como psicóloga na Secretaria de Educação e no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Em 2014, após 12 anos de trabalho como funcionária pública, pediu exoneração.

Hoje, ela trabalha no Espaço Psyché, empresa que abriu em Artur Nogueira que oferece atendimento multidisciplinar em saúde mental, com psicólogos e psiquiatras. Também é professora universitária no Curso de Psicologia na Faculdade Integrada Einstein, em Limeira.

Todos os dias atende pacientes com depressão, doença que aprendeu a lidar e ajudar as pessoas a enfrentar. Na entrevista abaixo, Valéria fala sobre esse mal que atinge milhões de brasileiros.

Qual a realidade da saúde mental do município de Artur Nogueira? Muito precária. Muitas vezes devido à falta de opções de lazer e cultura. Atendo muitos jovens em fase de vestibular, que reclamam da falta de atividades na cidade. Isso os leva, ou os resta, os bares ou os churrascos de finais de semana. As bebidas e as drogas são predominantes em alguns ambientes. Outro motivo é a falta de repertório social, que é o não movimento em busca de algo que possa dar sentido na vida do indivíduo. As pessoas se acostumam a reclamar da vida, das coisas, das percas, da falta e não se mobilizam para fazer diferente, para fazer acontecer. Reclamam, mas não tem a iniciativa da mudança. Eu acredito que 48% da população de Artur Nogueira sofra de algum tipo de depressão reativa, destas nem metade tem consciência da doença. Esses são dados não oficiais, que eu acredito que sejam reais devido a minha experiência profissional nesta cidade.

Quais os motivos mais comuns que levam as pessoas a entrar em depressão? São combinações de vários fatores que levam à doença da depressão. Esses fatores são motivados por acontecimentos marcantes no que diz respeito à vida psíquica, como por exemplo, as feridas não redimidas do passado, tais como separações, arrependimentos, medos, traumas vividos e outras situações não aceitas, ou seja, que não foram elaboradas emocionalmente pelo indivíduo. Uma vida de eventos estressantes contínuos pode acarretar também o desenvolvimento da doença, assim como situações de perdas de todos os tipos, de entes queridos, de bens materiais, mudanças profissionais. Tais acontecimentos marcantes alteram o equilíbrio do funcionamento psíquico-corporal, trazendo uma falta de vitalidade em relação à vida, somado a desesperança.

Afinal, o que é a depressão? É preciso distinguir entre a depressão endógena, que é uma doença psico-orgânica, ou seja, de caráter hereditário, um distúrbio com predisposição genética e que se define pela deficiência de neurotransmissores importantes como a serotonina, noradrenalina e a dopamina, nesse caso deve ser tratada com medicamentos e psicoterapia, por ser apresentar de forma crônica ao longo da vida, como se o pensamento ficasse solto no cérebro e não desse a sequência necessária para o vigor do dia. Existem ainda as depressões reativas, que são a maioria dos casos, mas nem por isso menos grave e preocupante, e que são formas que o corpo e a mente inconscientemente encontram para reagir às experiências negativas, fazendo com que uma angústia profunda se instale e a pessoa não encontre forças para enfrentar as exigências no dia-a-dia.

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Depressão é uma doença nova? A depressão é uma doença que afeta a humanidade ao longo dos tempos. Ela é uma doença da alma. Existe um livro de um pesquisador, Andrew Solomon, que se chama “O demônio do meio-dia”. É uma citação do salmo 90, no qual ele se vale de uma metáfora para se referir a depressão como uma doença que ataca em plena luz do dia, trazendo uma a sensação de um vazio total e de uma tristeza profunda. Essas sensações são descritas por diversos autores ao longo da vasta literatura e da cultura, nos livros de Goethe, Dostoievsky, Shakespeare, bem como em textos mais antigos como as tragédias gregas. Com certeza outros nomes eram dados a essa doença. A partir da conturbada vida pós-moderna, a humanidade ficou a mercê dos processos que individualizam e isolam cada vez mais os seres humanos, os estudos científicos tornaram assim mais evidentes as manifestações da doença, como tal bem como a amplitude de medicamentos e terapias no mercado que fizeram com que a doença depressão tornasse mais conhecida pela população. Permitem que tratamentos sejam efetivados para melhorar a qualidade de vida.

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“A depressão é uma doença da alma”

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Quais os sintomas da depressão? São vários e estão em geral presentes em conjunto de sintomas associados, são eles: fadiga crônica, sentimento de vazio e tristeza profunda, preocupações que interferem significativamente no trabalho e na vida social, irritabilidade, falta ou excesso de apetite, isolamento social, sentimentos de falta de esperança, insatisfação com a vida, distúrbios do sono, ausência de prazer, sentimentos de culpa, medo e baixa autoestima. A combinação destes sintomas pode aparecer em cada indivíduo de uma forma diferente e muitas vezes apenas como sintomas corporais.

Qual a diferença entre depressão e tristeza? Depressão em geral é crônica e está associada a constantes vivências desgastantes que alteram o equilíbrio emocional, corporal e social. Já a tristeza é um sentimento que faz parte da essência do nosso processo de humanização, na verdade ficamos tristes quando confrontados com nossos limites e impotência, mas temos força para reagir a estas questões. A tristeza não pode ser caracterizada como doença. As tristezas do cotidiano são claramente identificadas e em geral passageiras.

Quem é mais suscetível à depressão? Pessoas que apresentam dificuldades em submeter-se a pressões cotidianas, que temem de modo exacerbado o fracasso, que possuem dificuldades em lidar com as frustrações e mudanças que a vida exige, pessoas geneticamente propensas ou que conviveram com pessoas depressivas e apreenderam os comportamentos inerentes a doença e também pessoas com padrão negativista de interpretação dos fatos. Em geral, a depressão acomete mais as mulheres em idade jovem e adulta, do que os homens jovens e adultos, sem esquecer que as crianças que possuem algum transtorno em seu desenvolvimento e os idosos que não possuem uma vida social ativa também podem apresentar depressão. Até 2020, a depressão deve passar da quarta para a segunda colocada mundial entre as principais causas de incapacidade para o trabalho, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS – 2013).

A depressão tem cura? A depressão endógena não tem cura, mas com devido tratamento a pessoa pode apresentar melhoras consideráveis e conviver com a doença sem que isso afete tanto o desenvolvimento psicossocial. Já a reativa, muito parecida com a tristeza como já disse, pode ser tratada apenas com psicoterapia, sem medicação.

E a síndrome do pânico, o que é? Atualmente, a síndrome do pânico (SP) é considerada um problema de saúde pública sério, de acordo com a OMS. De 2 a 4% da população mundial sofre desse mal. A SP está relacionada aos transtornos de ansiedade generalizada, no qual é constatado pelo menos quatro sintomas, são eles: coração acelerado, agitação, tontura, sudorese, falta de ar, dormência ou formigamento, calafrios e onda de calor, sensação eminente de morte, desencadeada por pensamentos disfuncionais, ou seja, um pensamento distorcido que leva a uma conclusão sem evidências, por exemplo, como pensamentos catastróficos “se eu for viajar, vou sofrer um acidente”, o mais comum é o medo antecipado de passar mal se sair de casa. Em geral, a SP se diferencia da depressão por esses sintomas, no entanto, quem apresenta a síndrome tem maior tendência de se tornar clinicamente deprimido pelo fato de sofrer condições debilitantes. A base da SP é o alto índice de ansiedade geral aumentada. Trata-se, portanto, de um distúrbio condicionado pelo medo de perder-se de si mesmo.

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Uma pesquisa divulgada ano passado pela Unifesp apresentou que mais de 21% dos jovens brasileiros tem sintomas de depressão e que 5% já tentaram suicídio. Em sua opinião, qual o motivo de números tão alarmantes? Em minha opinião é a falta de perspectiva de um futuro melhor, mas principalmente de um sentido para a vida, uma vez que vivemos numa sociedade individualista ao extremo, onde o consumo é a fonte de satisfação e sucesso, além da conformidade e aceitação de padrões de beleza incompatíveis com a realidade e demanda por uma felicidade contínua que os deixam cada vez mais insatisfeitos e solitários. Outro motivo é a falta de políticas públicas para a juventude no Brasil que não permite que os jovens tenham condições de explorar mais a criatividade e a cultura e criar laços afetivos estáveis na vida social.

A depressão pode evoluir para um quadro de suicídio? Sim, se não tratada corretamente a pessoa pode viver a desesperança. Usamos a expressão “a esperança é a última que morre” em muitos casos de depressão no caso que a pessoa não vê saída para a sua dor existencial é acometida por um desespero, onde a dor de viver e a dificuldade de enfrentamento dos desafios são maiores que a dor de morrer.

Como identificar uma pessoa com depressão? Ficar atento aos sintomas principais, sendo que para uma avaliação mais profunda sempre é necessário à ajuda de um profissional. O importante é não julgar, mas orientar para que a pessoa possa buscar o auxílio profissional adequado.

Qual a melhor forma de ajudar uma pessoa depressiva? Acho que é justamente não julgar, compreender os sintomas e encaminhar a pessoa para um tratamento psicológico e psiquiátrico. Eu escuto muito as pessoas com depressão expressarem que seus familiares e amigos acham que certos sintomas são comportamentos ditos “frescura”, ora ninguém quer adoecer assim. Mesmo que muitas vezes a pessoa adoece para chamar atenção, há que se tratar e ser considerado o motivo pelo qual vem se comportando desta forma. Por isso a psicoterapia é imprescindível.

Qual o papel da escola e do governo quando o assunto é depressão? Primeiramente, não há saúde pública sem saúde mental. Uma vez eu ouvi uma palestra em Holambra em que o profissional disse: “saúde a gente aprende, educação é o que cura”, nesse quesito estou me referindo ao papel do governo, que é promover a saúde mental através da educação da população sobre o tema e o fortalecimento dos CAPS como articulador da saúde mental. Quanto às escolas, elas podem ajudar e muito quando permitem ou percebem determinadas expressões que apresentam indicadores de que o aluno esteja prejudicado em seu bem estar psicossocial. A escola pode ajudar tanto no sentido da educação emocional como na identificação de situações provocadoras de transtornos depressivos, como bullying, violência doméstica, e/ou situações de inferioridade.

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“Não há saúde pública sem saúde mental”

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E o papel da família e dos amigos? É graças a eles que muita gente toma consciência da doença e é com o auxílio e acolhimento deles que se torna possível uma recuperação mais rápida. Outra questão sobre o papel da família e dos amigos é aprender a lidar com o adoecimento, compreender que a depressão é uma doença e que a dificuldade do depressivo em agir ou ficar animado não depende dele, mas sim de um conjunto da química cerebral associado ao bem estar emocional.

Qual a dica para ter uma vida feliz, longe da depressão? Trabalhar para ter uma boa autoestima, permitir sentir e viver emoções, especialmente as ditas “negativas”: raiva, medo, tristeza. “Escutar” o corpo. Trabalhar em si a resiliência, ou seja, a capacidade de enfrentar os desafios que a vida traz. Ter uma boa noite de sono é fundamental para uma vida feliz. Flexibilidade e facilidade para o diálogo. Além de atividades físicas, ter atividades que sejam prazerosas. Realizar um tratamento psicoterápico adequado para se autoconhecer, assim o indivíduo se fortalece emocionalmente e aprende a lidar com situações difíceis e sem saída.

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Dizem que o estresse é a doença do século. Como sobreviver a uma sociedade cada vez mais agitada e estressada? Qual a dica para manter o controle? Em primeiro lugar, respeitar o próprio corpo, não confundir a vida pessoal com a vida no trabalho, ter uma atitude de gratidão diante da vida, rever nossos valores, buscar o autoconhecimento como um desafio de encontrar sua jornada interior e o sentido da sua própria vida, que não é o sentido da vida de outro. Citando o psicanalista Carl Gustav Jung, “sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta, caso contrário, estarei reduzido a resposta que mundo me der”.


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