24/01/2015

ENTREVISTA: Pierre dá dicas de como adestrar seu cão

Adestrador de cães de Artur Nogueira fala como melhorar o relacionamento entre você e o seu cachorro

IMG_9874a“Um cão que escuta e faz o que é lhe dito raramente causa problemas” Pierre

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Alex Bússulo

Há cerca de 7 meses eu e minha esposa adotamos um cachorro. Queríamos um animal de estimação e acolhemos um cãozinho recém-nascido. A mãe dele havia sido abandonada prenha semanas antes do nascimento na zona rural de Artur Nogueira. Uma família de um sítio adotou a cachorra e cuidou dos filhotinhos.

O Scott, nome que demos ao filhote, era muito pequeno. Menor do que um Pinscher. Como não sabemos a raça do pai, apenas da mãe que é uma boxer, deduzimos que ele tenha também o sangue de um Fila. Não que isso importe alguma coisa.

No início o Scott era tranquilo. Só queria saber de colo e comida. Mas ele cresceu e descobrimos que criar um cachorro não é nada fácil. Exige tempo e disciplina. Carinho e até um pouco de dinheiro para cuidados básicos como veterinário, medicamentos e alimentação, além é claro daqueles brinquedinhos que eles adoram (meu quintal é cheio deles!).

Como eu disse o Scott cresceu. E ficou muito… digamos… indisciplinado. Acho que essa é uma boa definição. A ponto de rasgar meus jornais, fazer buracos no jardim, comer o coqueiro, pular nas visitas e até destruir uma peça do meu carro. Não foi fácil.

Mas amor é amor e não se discute. Desde quando vimos pela primeira vez aquela bolinha de pelo sabíamos que ele faria parte da nossa família. Mesmo com todas as consequências. A solução foi buscar ajuda profissional. Foi aí que o Pierre entrou na história.

Por indicação de um amigo, que também já tinha passado por algo parecido, chamamos o adestrador nogueirense para uma conversa. Em pouco tempo de bate papo, Pierre deu um diagnóstico do comportamento do Scott e disse o que seria feito nos próximos meses.

Hoje, o nosso cão continua sendo adestrado, mas mudou completamente o comportamento. Ficou mais dócil e já não mais destrói os objetos da casa. Felizmente.

Na entrevista desta semana converso com Jean Pierre Gonçalves Dias, um nogueirense de 41 anos que se dedica a arte de melhorar o convívio entre pessoas e cães. Ele adestra cachorros há 18 anos e possui vários cursos. É especialista em psicologia comportamental, cães de polícia, resgate com cães, treinamento para cães de segurança patrimonial, entre outros.

Já adestrou cães das Guardas Municipais de Amparo, Sumaré e Artur Nogueira. Em todos esses anos ele acredita que já tenha adestrado quase dois mil cães. Na conversa a seguir, Pierre fala sobre a importância do adestramento e dá dicas valiosas (eu que o diga) de como melhorar a convivência com o seu cãozinho. Confira:

Qual a importância do adestramento de um cão? Eu diria primordial. Na Europa todos os cães adquiridos por seus donos precisam passar por um centro de treinamento de cães. É igual quando fazemos aula numa autoescola para tirar habilitação. É lei. Faz parte do processo de posse responsável. Infelizmente ainda não temos essa cultura por aqui. É notório observar a diferença entre um cão adestrado e outro não. É prazeroso ter um cão adestrado. Ele é bem-vindo em quase todos os lugares porque se comporta perto de pessoas e de outros cães. O principal benefício é a segurança dele e das pessoas que o cercam. Pois um cão que escuta e faz o que é lhe dito raramente causa problemas.

Dá para adestrar qualquer raça? Existe uma mais fácil ou mais difícil? Sim. Estudos mostram que os cães Border Collies são os mais inteligentes. Já os mais difíceis são os Chow-chow, Husky, Pugs e Afghan. Mas pela experiência que tenho adestrando cães digo que qualquer cão é adestrável. Realmente alguns são mais dedicados, conseguem se concentrar mais no aprendizado e outros são mais dispersos, dando mais trabalho. Digo mais: os populares vira-latas, não importa se são sem raça definida, aprendem com muita facilidade por lidarem com as diversas situações que os cercam nas ruas.

Como é feito o adestramento? É feito através de um sistema que chamamos de condicionamento, ou seja, repetições de exercícios com a aplicação de estímulos positivos (petisco, bolinha, carinho e liberdade), conciliando com estímulos negativos (correção e privação).

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Qual a melhor idade para adestrar um cão? Com oito semanas. Porque o seu caráter e seu sistema neurológico estão completos e todos os circuitos estão ‘plugados’. A mente dele é uma página em branco e tudo o que devemos fazer é preenchê-la com informações corretas.  Eles não vão esquecer o que aprenderão nas semanas seguintes. Se esperar o cão ficar mais velho provavelmente ele já terá adquirido uma série de maus hábitos, o que significa que terá que apagar a página e começar tudo de novo, um trabalho muito mais desgastante do que começar com um filhote. Mas eu particularmente começo com três meses.

Um cão adestrado obedece qualquer um? Não, necessariamente. Se você receber uma visita e ela tentar comandá-lo, num primeiro momento ele não irá obedecer. Os cães são sociáveis e não gostam e desconfiam, num primeiro instante, de pessoas estranhas. Já se esta visita passar alguns dias no seu convívio e pegando afinidade com o cão, certamente ele começará a obedecer.

Quanto tempo leva para adestrar um cão? Para adestrar um cão é necessário de cinco a oito meses. Esse tempo varia de acordo com o que será treinado. Por exemplo: um cão que será só obediência levará em média de cinco a seis meses, dependendo da idade, já que, como expliquei antes, um cão mais velho precisa de mais tempo por já ter adquirido comportamentos indesejáveis. Já os cães que terão que passar pelo treinamento de obediência e proteção levam em média oito meses, já que precisam estar com sua maturidade desenvolvida.

Quais os comandos fazem parte do adestramento básico? Na verdade são cinco comandos: ‘Senta!’; ‘Deitado!’; ‘Fica!’; ‘Aqui!’; e ‘Junto!’. Mas eu, em particular, gosto de acrescentar o comando ‘Ir pro local indicado’, para facilitar a entrada e saída de um veículo, a recepção de uma visita, etc.

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O que é mais difícil durante o adestramento? O comprometimento do proprietário em seguir as orientações ditas. É visível para qualquer adestrador profissional se realmente o cliente está seguindo suas orientações, e isso se aplica quando vemos os cães fazendo perfeitamente os comandos com o adestrador e mais ou menos com o proprietário. Isto é muito sério, o cão não é uma máquina que se programa e depois é só apertar um botão que ele fará tudo. O cão é um ser vivo que lê nossa linguagem corporal e sabe como ninguém observar quem é o líder que deve ser seguido e quem deve ser ignorado.

Gritar para o cão após ele ter um comportamento inadequado vai corrigi-lo? Não e não tente discipliná-lo depois que a ofensa foi realizada. O cão não consegue fazer conexão entre disciplina e suas ações. Ele pode parecer culpado, mas não porque ele entende o que fez, mas sim porque ele entende a entonação da voz e sua linguagem corporal. Ele certamente não sente a culpa. Culpar o cão porque ‘ele deveria saber’ ou porque ‘ele não deveria ter feito isso’ não irá melhorar seu comportamento. Ele só consegue entender se for corrigido no momento do erro.

O que deve ser feito para diminuir a ansiedade do cão? Primeiramente, observar o que está levando o cão a ficar ansioso. Geralmente, e na maioria das vezes, isso acontece quando se priva o cão de interagir com a família ou outros cães da casa. Situação que agrava este quadro é restringir o cão no canil, não sair com ele, deixá-lo sempre preso à corrente. Meu conselho é dedicar a ele o maior tempo possível. Seja brincando, caminhando, adestrando ou simplesmente ficando algum tempo apenas do seu lado. A ansiedade caminha para algumas situações indesejadas ou até mesmo perigosas que contribuem para que o cão se torne agressivo e muito destrutivo.

Como impor limites ao cão? Para que isso aconteça ele primeiramente precisa ver o dono como líder, só assim ele vai o respeitar quando for cobrado por algum comportamento. E isso só acontece se o dono se dedicar e seguir as orientações do adestrador.

O Pit Bull realmente é um cão agressivo? Não! E muitas pessoas se enganam em achar que o Pit é um cão de guarda. Não que ele não possa ser, desde que seja treinado para esta função. Na verdade ele é um cão atleta com uma força e energia descomunal e com um temperamento maravilhoso. Mas, infelizmente, pessoas de má índole enxergaram essa força e energia descomunal e canalizaram de uma forma que os tornaram cães assassinos em relação a outros cães. Não consigo nem mais calcular quantos cães já treinei e nunca tive problemas. Existe muita divulgação na mídia que generaliza o Pit como um cão agressivo. Isso não pode acontecer. Existem casos e casos. Prefiro avaliar o cão como um indivíduo.

Qual é o maior erro que os donos cometem na tentativa de educar um cão? É não saber e nem buscar informações de como agir com determinado comportamento. Mas o mais frequente é humanizar o cão, achando que ele entende as nossas palavras. O cão só entende nossa entonação de voz e nossa linguagem corporal. É assim que eles se comunicam um com os outros.

Qual é a maior recompensa para um cão? É tratá-lo como um cão e não humanizá-lo. Ele só precisa de amor, atenção, limites, comida, água, ser levado ao veterinário para cumprir seu calendário de vacinas e um abrigo seguro e estável.

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O que faz um adestramento dar errado? É não ter o comprometimento da família envolvida no adestramento. O cão não erra, ele sabe perfeitamente se precisa ou não atender um comando. Se todos falarem a mesma língua em relação ao adestramento o cão certamente será feliz, afinal, para ele, não haverá dúvidas. Para o cão é ‘sim’ ou ‘não’, não pode haver uma terceira opção.

É caro fazer o adestramento de um cão? Depende. Se avaliarmos o custo benefício, não. Afinal, quanto vale ter um companheiro obediente, amoroso e protetor?

E o Scott, qual a sua avaliação dele hoje? Na minha analise posso dizer que ele mudou da água para o vinho. Faltava disciplina na vida dele. Em 5 meses de adestramento hoje temos um cão mais tranquilo que age de forma mais disciplinada. Meu trabalho como adestrador é canalizar comportamentos errados para comportamentos certos. Corrigimos atitudes erradas que ele tinha e hoje temos um cachorro bem mais sociável.

Qual o seu contato? Aqueles que queiram conhecer mais sobre meu trabalho podem me contatar pelos celulares (19) 99443-5470 ou (19) 99485-9748.


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