10/01/2015

ENTREVISTA: Norival Esperança

Fotógrafo mais tradicional de Artur Nogueira relembra os 35 anos de carreira

capa2“A câmera é igual a um pincel. Nas mãos certas realiza grandes obras” (Norival Esperança)

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Alex Bússulo 

Na última quinta-feira, dia 8 de janeiro, foi comemorado o Dia Nacional do Fotógrafo, um profissional que se dedica a registrar e eternizar momentos através das lentes fotográficas. Seja para fotografar dias felizes como em casamentos, festas, cerimônias e conquistas, seja para registrar acontecimentos trágicos como acidentes e mortes. Ou ainda para fotografar paisagens, cotidiano de pessoas ou para montar aquele book fotográfico com as melhores poses e olhares.

“Ser fotógrafo é acima de tudo ser um bom artista” – é assim que define Norival Antônio Esperança, nogueirense que há 35 anos se dedica profissionalmente a arte de fotografar. Hoje, aos 49 anos de idade, ele acredita que já tenha fotografado mais de 5 mil casamentos.

Mas ele também já se dedicou a fotografar outras situações, como ocorrências na Delegacia, incluindo prisões, acidentes e até fotos de defuntos no caixão. Em homenagem ao Dia do Fotógrafo, o Portal Nogueirense entrevista nesta semana o Esperança, como é mais conhecido, proprietário do E.N.A. Produções Fotográficas.

Filho de uma dona de casa e de um motorista, Esperança começou muito cedo a trabalhar. Até os 11 anos ajudava a mãe e os outros três irmãos na roça. Depois conseguiu um emprego em uma serralheria na cidade onde ficou por 2 anos. Foi aos 13 anos que teve o primeiro contato com a fotografia, quando conseguiu um emprego na Foto Esporte, empresa que ficava localizada no mesmo ponto onde hoje é o E.N.A.

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“É bom lembrar que em todos esses trabalhos eu não ganhava nada. Naquela época a mãe colocava o filho para aprender um ofício, não havia remuneração. Começava como um aprendiz. Fui ganhar meu primeiro salário só depois de algum tempo, mas era algo quase que simbólico”, relembra Esperança.

Mas a paixão pela fotografia teve início um pouco antes. “Quando eu tinha 8 anos de idade fui no casamento de uma tia e, mesmo sendo uma criança, uma coisa na cerimônia me despertou a atenção. Não era a noiva, o noivo ou o padre, mas sim o fotógrafo! Acredito que era o Julinho Caetano, um dos primeiros fotógrafos que Artur Nogueira teve. Achei muito interessante. E fiquei com aquilo na minha mente. Foi um despertar de um sonho, distante naquele momento”, conta.

Aos 14 anos de idade fotografou o primeiro casamento. “O Joeni Moreira Barros era o proprietário do Foto Esporte e foi quem me deu a oportunidade de entrar no mundo da fotografia. Ele era fotógrafo e trabalhava naquela época com casamentos, revelação de filmes em preto e branco e venda de algumas máquinas. Ele dizia que não ensinava ninguém a fotografar e que nós tínhamos que aprender sozinhos. Lembro que ele pegava os serviços e eu ia, sozinho, fotografar os casamentos, isso com 14 anos!”.

Esperança relembra que devido à idade muito nova dele algumas noivas não gostavam muito. Mas isso foi apenas no começo. Depois de algum tempo de trabalho havia noivos que contratavam o Foto Esporte e que pedia a presença dele nos casamentos.

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Ainda na adolescência, ele desenvolveu a própria técnica de fotografar. “Era comum ver fotos desfocadas naquele tempo. Não existia foco automático. E isso me incomodava. Como eram fotos em filmes, e não digitais como hoje em dia, não dava para tirar muitas fotos e nem errar no clique. Uma vez peguei a máquina fotográfica do meu patrão e a levei para casa para treinar. Eu ia fotografar um casamento no dia seguinte e queria fazer o melhor. Como o flash sempre soltava a mesma potência de luz eu tinha que saber a regulagem exata para fotografar. Então, memorizava a regulagem na cabeça conforme a distância que tinha. Para não deixar os noivos desfocados na entrada eu focava a máquina em algum arranjo e quando os noivos passavam por ele eu fotografava. Dava certo e minhas fotos não ficavam desfocadas”.

A paixão pela fotografia era nítida em Esperança. Na juventude já demonstrava o talento que tinha e isso chamava atenção. Todos os finais de semanas havia casamentos para fotografar. Em um único dia o jovem fotógrafo recorda que fotografou quatro casamentos, entre cerimônia e festa. “Eram tantos casamentos naquele dia que eu tinha um taxista exclusivo só para mim. Lembro que era o Sebastião Costa que me levava para lá e para cá. Eu chegava, fotografava os noivos nas igrejas e depois ainda ia para as festas”.

Enquanto trabalhava na Foto Esporte, Esperança fez o curso técnico em Contabilidade. Quando completou 18 anos decidiu buscar outro emprego. “Eu queria muito fazer uma faculdade, mas com o pouco que eu ganhava fazendo fotografia não dava. Meu objetivo era trabalhar em uma grande indústria e a Teka era a melhor opção. Queria trabalhar na parte administrativa, então mandei currículo e fiquei aguardando. Enquanto isso fui pedir uma oportunidade para o Aureni Queiroz no escritório dele. Lembro que ele disse que não podia me contratar, mas devido minha insistência me deixou acompanhar o trabalho dos funcionários dele. Eu queria muito aprender e desenvolver aquilo que eu sabia na teoria quando fiz o curso técnico. Então, ficava do outro lado da mesa, observando e aprendendo. Depois de algumas semanas o próprio Aureni me indicou para o Rui Capato, que tinha uma rede de supermercados na região. Eu não queria ser registrado porque queria trabalhar na Teka. Mas enquanto ela não me chamava fui trabalhar com o Rui. Trabalhava na parte administrativa dos mercados. Era um trabalho muito gostoso. Depois entrei na Teka, começando como auxiliar administrativo. Fiquei lá por 7 anos”.

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Mesmo trabalhando com o Aureni, com o Rui e na Teka, Esperança nunca deixou de lado a fotografia. Nos horários que não estava trabalhando ele sempre era contratado para fotografar. “Tinham noivos que iam para o cartório, que fecha às 17 horas, e faziam todo mundo esperar até eu chegar. Queriam que eu fosse o fotógrafo. Eu fotografava porque gostava, e também porque não queria perder a prática”.

Em um dia, quando retornava da Teka para a casa, teve uma surpresa. “Meu ex-patrão, o Joeni, estava com os meus pais me esperando. Ele disse que queria voltar para a terra dele e que queria vender a loja dele, a Foto Esporte, para mim. Fiquei meio pensativo, mas no final acabei fechando negócio. Vendi um terreno que tinha aqui na cidade e emprestei um dinheiro com os meus pais. Comprei o ponto e me tornei dono do negócio onde um dia havia começado como aprendiz. Assumi a empresa e mudei o nome da loja. De Foto Esporte passou para E.N.A.”, conta.

O novo nome escolhido foi estratégico. “Eu pensei grande e tive uma sacada. Coloquei uma sigla com duplo sentido. A princípio E.N.A. poderia significar Empresa Nacional de Artes, mas também poderia ser Esperança Norival Antônio”, revela.

Quando assumiu a loja, Esperança trabalhava sozinho. O ponto forte da empresa sempre foi a fotografia de casamentos, mas a loja também vendia e revelava filmes fotográficos, além de tirar fotos 3×4 e fotos em estúdio. Também vendia algumas máquinas fotográficas. No começo as fotos eram reveladas em Campinas e demoravam alguns dias para ficar prontas. Depois de algum tempo, Esperança investiu e trouxe para Artur Nogueira um laboratório para revelação.

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Teve uma época que ele fotografava outras coisas, além de casamentos. “Era um trabalho voluntário que fazia, não ganhava nada por isso. Me colocava a disposição da Delegacia de Polícia para fotografar o que eles precisavam. Lembro que não havia hora, muitas vezes ia para a Delegacia de madrugada. Era chamado para fotografar bandidos que eram presos, drogas que eram apreendidas, acidentes de carro, fotografava cada coisa. Também ia para o velório. Muitas pessoas me chamavam para fotografar defuntos nos caixões. Era comum pessoas enviarem fotografias do morto para familiares que moravam em outros estados e não conseguiam vir para o velório”.

Esperança conseguiu manter e renovar o negócio mesmo com os avanços tecnológicos e com a chegada das câmeras digitais. “Não tive nenhum problema em me adaptar as novas máquinas. Foi um avanço tecnológico que trouxe muitos benefícios”.

Hoje, o E.N.A. ainda revela fotos de filmes analógicos, mas a demanda é muito pequena, sendo poucas revelações mensais. A empresa oferece máquinas de revelações digitais nas quais os próprios clientes, em minutos, conseguem fazer as revelações.

O fotógrafo não consegue imaginar quantas fotos já tirou durante os 35 anos. Para ele, escolher uma especial é difícil. “Já fotografei muita coisa. Muitas situações que me marcaram. Em um período de descanso fui viajar e fiz umas fotografias que eu achei fantásticas. Fiz uma viagem para Aracatu, na Bahia, e fotografei o comportamento das pessoas, a rotina, a simplicidade daquele povo que vive no sertão. Gosto de fotografar isso. Se pudesse viveria disso”.

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Esperança afirma que fotografar é uma arte. “Não é a máquina que faz o fotógrafo. A câmera é igual a um pincel, nas mãos certas realiza grandes obras. Em qualquer lugar você encontra pincel para comprar, assim como as câmeras que hoje estão em todos os lugares, inclusive nos celulares. O bom fotógrafo é aquele que é, antes de tudo, um bom artista”, conclui o fotógrafo.

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