01/03/2014

ENTREVISTA: David Martins fala sobre a importância do Bloco da Vaca

Organizador da Vaca explica porque o Carnaval de Artur Nogueira é um dos mais animados do interior paulista

David“A Vaca faz parte da história e da cultura de Artur Nogueira” (David Martins)

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Alex Bússulo

Há 84 anos ela é tradição em Artur Nogueira. Inspirada nas touradas espanholas ela ganhou o coração dos nogueirenses e já faz parte da cultura do município. Ela não tem dono, não tem um criador. Pertence ao povo e é feita pelo povo. Um verdadeiro e legítimo folclore.

A Vaca acontece em dois dias: no domingo e na terça-feira. A brincadeira se resume em levar chifradas de uma Vaca confeccionada de cipó, arame, tecido e espuma, acompanhado pelo batuque da bateria. A folia costuma reuniu mais de 30 mil foliões em cada um dos dias.

Em 2012, a Vaca foi tombada como patrimônio histórico imaterial de Artur Nogueira. No Brasil todo existem apenas mais dois blocos de Carnaval com esse título: o Cacique de Ramos e Galo da Madrugada.

Todos os anos uma equipe de voluntários se reúne para dar vida a famosa Vaca. Entre os organizadores está o nosso entrevistado da semana: David Allan Martins. Aos 29 anos de idade, ele faz de tudo um pouco, desde a confecção da Vaca até os ensaios da bateria.

E já faz um bom tempo que ele participa. “Desde quando era criança eu saio no Carnaval de Artur Nogueira. Lembro-me muito bem de acompanhar o meu pai no preparo de fantasias e carros alegóricos. Sempre gostei e participei”, relembra David.

O gosto pelo Carnaval está no sangue. O avô dele, senhor Sidnei Bueno, foi um dos organizadores do Bloco da Vaca há décadas passadas. E o pai é um verdadeiro folião. Afinal de contas quem não conhece o Genivaldo Martins, o famoso Gege? Que hoje é o organizador do bloco Mundo Mix.

Sem contar ainda que ele é sobrinho do atual Rei Momo de Artur Nogueira, o Lemão da Lida. “É verdade! Ele é irmão da minha mãe. O Lemão também sempre gostou de Carnaval. Foi Rei Momo aqui em 2005 e agora conseguiu ser reeleito. Espero que ele aguente descer e subir a avenida [risos]. Mas ele é uma pessoa muito querida e esforçada. Tenho certeza que vai se sair muito bem na Corte da Folia”, afirma o nosso entrevistado.

David

David afirma que entrou para a Bateria da Vaca em 1997 e nunca mais saiu. “Já faz muito tempo. A Vaca faz parte da minha vida. Me recordo que eu não conhecia nenhum instrumento da bateria, cheguei e fui me enturmando. Foi o Romildo que me ensinou o batuque. Comecei a tocar um instrumento chamado repilique”, conta.

Ele nunca fez nenhum curso musical. É um verdadeiro músico autodidata. Esforçado, é um rapaz que gosta de aprender e transmitir aquilo que sabe. Hoje, ele toca todos os instrumentos da bateria e tem prazer em ensinar os mais novos integrantes. “O legal da Vaca é isso. É a passagem das gerações, pais e filhos, crianças e adultos, um vai passando e ensinando para o outro. Acredito que o grande diferencial do Carnaval de Artur Nogueira seja a Vaca. É ela que nos torna tão especiais. Uma festa feita pelo povo para o povo. A Vaca é tradição. Ela faz parte da história e da cultura de nosso município”, afirma.

Quem vê a bateria e a Vaca desfilar na Avenida Dr. Fernando Arens não imagina o trabalho que dá. A confecção da Vaca e os ensaios dos músicos começam dois meses antes do Carnaval. David afirma que a confecção de uma Vaca pode demorar um mês inteiro, isso se o trabalho não for interrompido. “Pra se fazer a Vaca a primeira coisa que fazemos é a colheita de cipós. Entramos no meio do mato e pegamos os melhores galhos. Como de costume, a Vaca é construída com cipó, amarrado com arame e borracha, além de espuma e tecido. Para fazer a cabeça, é utilizada a carcaça de uma vaca de verdade. Todo o trabalho de confecção é feito no espaço do Teatro Renê Marcos Posi. Dá um trabalhão, mas no final recompensa. Nossa Vaca fica forte, pronta pra enfrentar os foliões na avenida”, afirma.

David se emociona ao falar de um antigo organizador do Bloco da Vaca, o Lelo Townsend que, aos 80 anos de idade, ainda é um dos que puxa a fila da Vaca. “Tenho um enorme respeito e carinho por este homem. Pra mim ele é como se fosse um verdadeiro pai. A força e o entusiasmo que ele tem nos contagia. E tudo o que ele pede a gente faz. Obedecemos certinho. No final ele sempre tem razão. Não apenas por ser o mais velho, mas por ser o mais experiente. Ele sabe muito bem o que faz. Tenho muito orgulho dele”, afirma.

David

E não é para menos. Lelo faz questão de participar de todos os Carnavais de Artur Nogueira. Participa da confecção da Vaca e sempre fica de olho nos ensaios da bateria. Ele é, sem dúvidas, um patrimônio de Artur Nogueira.

Além do David e do Lelo, o Bloco da Vaca conta com o trabalho de outras pessoas. “Nosso grupo é formado por várias pessoas, cada uma importante na sua área. Entre elas dou um destaque especial ao Duda, Cridinho, Romildo e o André, além da minha esposa Cintia, que nos ajuda muito fazendo um papel de secretária da bateria. Também agradeço o apoio enorme dado pelo meu amigo Gugu e a esposa Cris, além das filhas deste casal, a Thaís e a Madú. São pessoas que doam horas e mais horas de trabalho sem cobrar nenhum centavo em troca. Fazem porque amam, porque adoram ver a Vaca correndo na rua. É uma paixão que nos motiva sempre”, conta.

Além da Vaca e da Bateria, a folia ainda conta com a figura de um ‘boizão’. “Que é o nosso carro abre-alas. Chamamos ele de ‘boizão’ mesmo. Ele abre o desfile da Vaca. Ao todo ele mede mais de 4 metros de altura e 6 metros de comprimento. Antigamente ele era confeccionado de madeira. Hoje ele é feito com uma estrutura metálica. O mais legal e divertido é que ele mexe a língua, as orelhas e a cabeça. As crianças adoram ele”, afirma.

boizão

David também conta uma novidade que promete agradar os foliões neste ano. “Depois de décadas, teremos um retorno ao Carnaval de Artur Nogueira: os cavalinhos da Vaca. Antigamente, saiam vários homens vestidos de cavalinhos que protegiam a Vaca. Agora teremos eles de volta. Uma antiga tradição que foi resgatada”, conta o organizador.

A Bateria da Vaca este ano será composta por cem integrante, de todas as idade. “Temos pessoas de 7 a 60 anos, que tocam os mais diversos tipos de instrumentos. A bateria é composta por fileiras. Primeiro vem a fileira dos surdos, depois os tamborins, caixa, chocalho, surdinho e finaliza com o repilique. Juntos tocamos dois ritmos: a marcha e o samba, que contagia todo mundo, afinal de contas, quem não gosta do batuque da Vaca?”, afirma.

bateria

David conta ainda que a folia da Vaca mudou muito comparada há algumas décadas. “Antes, os foliões saiam de qualquer jeito na Vaca. Tinha gente que passava graxa na cara e saia na rua. Ou então pegava aquelas roupas velhas do guarda-roupa da avó. Hoje, conheço homens que compram vestidos, sapatos novos e até joias para saírem no Carnaval”, conta.

Para o organizador da Vaca, o Carnaval de Artur Nogueira deve sempre continuar na Avenida Dr. Fernando Arens. “Foi aqui que tudo começou. É a nossa tradição. Acredito que se mudarem o nosso Carnaval de lugar daqui há alguns anos perderemos e muito. Nossa graça está na avenida Dr. Fernando Arens. Foi assim na década de 30 e é assim até hoje”, acredita.

Para preservar essa tradição, os organizadores da Vaca criaram neste ano a campanha ‘Deixe a Vaca passar!’. A campanha contou com a elaboração de um folder com dicas de como brincar com a Vaca. O material foi distribuído em Artur Nogueira e região. “O objetivo do projeto é conscientizar os nogueirenses e turistas a respeitarem o personagem da Vaca. Ela não resiste a empurrões, chutes ou outros tipos de agressões. A Vaca tornou-se frágil para um público tão grande. Estimasse que 30 mil pessoas participem da folia a cada dia. Todos querem brincar com ela, levar chifradas e curtir o batuque da bateria. Mas, para a brincadeira continuar é preciso consciência por parte dos foliões. A Vaca precisa desfilar, correr, dançar pela avenida, e muitas vezes ela não consegue nem sair do lugar porque muitas pessoas se aglomeram ao redor dela, bloqueando a passagem. Vamos deixar a nossa folia mais bonita ainda. Vamos ver a nossa Vaca brilhar na avenida Dr. Fernando Arens”, afirma David.

vaca

O Carnaval deste ano contará com 5 Vacas. “Fazemos sempre mais que uma justamente para deixar uma de reserva. Para este domingo soltaremos 2 Vacas: uma verde e amarela, e outra azul e branca, em homenagem a Copa do Mundo. Foi ideia do Lelo. Na terça-feira, teremos uma Vaca Branca malhada de preto. Além de uma reserva que é branca e preta. A quinta Vaca é uma Vaquinha, que foi feita para as crianças para a noite dos Filhos da Vaca”, conta.

Antes de finalizarmos a entrevista, David comenta sobre um presente que recebeu na virada do ano. “Fiquei pai no dia 31 de dezembro de uma linha menina. Ela se chama Lara e com certeza será uma grande foliã e admiradora do Carnaval de Artur Nogueira. Ela só tem dois meses, mas se depender do pai e da mãe vai ser gostar da Vaca desde pequena. O Carnaval de Artur Nogueira é uma festa para a família. É uma tradição e história que se renova a cada ano. E vamos para a folia!”, convida David.

David


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