17/11/2012

ENTREVISTA: Restaurador de sanfonas há mais de 60 anos conta sobre profissão

Constantino Silva restaura sanfona há mais de 60 anos

“Sempre fui apaixonado por sanfona. Para mim é mais do que um trabalho, é uma arte” (Constantino Silva)

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Alex Bússulo 

Dependendo da idade que você possui é muito provável que nunca tenha tocado uma sanfona. Talvez já tenha visto pela televisão ou então em alguma quermesse ou festa junina da sua rua ou do bairro.

O nome deste instrumento musical varia de região para região. Os gaúchos costumam chamá-lo de ‘gaita’, nós, do interior de São Paulo, chamamos de ‘sanfona’. Nos demais estados, o mais comum é acordeão, do inglês accordion.

A origem da sanfona, ou a criação de um instrumento que resultou no que conhecemos hoje, está na China. Há mais de 2.700 anos, os chineses inventaram um aparelho musical chamado cheng, que precisava receber o sopro da boca para criar sons, diferente dos dias de hoje.

Muito popular no Brasil em décadas passadas, a sanfona constantemente costuma retornar em grandes sucessos. E não são apenas os idosos que gostam do som do instrumento. Quem foi na Expo Artur deste ano comprovou este fato. No show de Michel Teló, o público pode reconhecer a habilidade e recordar o som do instrumento. O cantor paraense sempre gostou de tocar sanfona em seus shows. Recentemente, lançou a música ‘Eu te amo e open bar’, que transforma o som tradicional da sanfona em um ritmo eletrônico – e está fazendo o maior sucesso.

Em Artur Nogueira tem um aposentado que é especialista no instrumento. Conhecido como o ‘Doutor das Harmônicas’, o senhor Constantino de Almeida Silva, de 84 anos de idade, é uma das poucas pessoas que ainda restauram e afinam sanfonas no Brasil.

Morador do bairro Coração Criança, este nogueirense de coração transformou o quintal da casa em uma oficina e já consertou sanfonas de nomes ilustres como Gonzaguinha, Dominguinhos, Trio Sabiá, entre outros. Também já foi notícia em programas de televisão, como ‘Antena Paulista’ da Globo, ‘Jornal Regional’ da EPTV e ‘Espaço Vida’ da TV Aparecida.

O talento e o gosto pela sanfona sempre estiveram presentes na família de Constantino. Pedro Sertanejo, famoso sanfoneiro que gravou vários discos e que fez sucesso em todo o Brasil, é irmão do entrevistado. “Meu irmão já morreu, mas as músicas dele são ouvidas até hoje. Ele deixou um filho, meu sobrinho, o ‘Oswaldinho do Acordeon’, que atualmente canta e toca como ninguém”, afirma Constantino.

Nesta semana, nossa equipe foi até a casa do sanfoneiro conhecer a vida e as histórias, que você acompanha a seguir.

Nascido em Euclides da Cunha, na Bahia, em 1928, Constantino teve dez irmãos e um pai que lhe ensinou o ofício que carrega até os dias de hoje. Foi aos 15 anos de idade que descobriu o dom pelo instrumento musical transmitido pelo pai, o baiano Aurélio de Almeida. “Sempre fui apaixonado por sanfona. Sempre gostei de tocar, consertar e afinar. Para mim é mais do que um trabalho, é uma arte”, afirma Constantino.

Ainda na Bahia, costumava ganhar a vida tocando em festas. “Mas não dava para ganhar muito. Eu tocava bastante, animava bailes, casamentos, aniversários, mas a situação financeira não era tão boa, precisava seguir adiante e buscar novas oportunidades”, conta.

Com 20 anos de idade ele partiu. Foi em busca de uma nova vida. Com pouco dinheiro no bolso e um grande talento no coração foi para a cidade grande. Em São Paulo começou a trabalhar em uma fábrica. Não era o trabalho dos sonhos, mas o baiano sabia que precisava juntar dinheiro para colocar seu plano em ação.

Na década de 60, após juntar uma cerca quantia em dinheiro, saiu da fábrica e abriu o próprio negócio. Foi no Liberdade, um famoso bairro japonês em São Paulo, que Constantino abriu uma pequena oficina de sanfonas chamada ‘Doutor das Harmônicas’. “O mais engraçado é que depois que eu coloquei esse nome, uma advogada chegou na minha oficina e disse que eu não deveria usar o nome ‘doutor’, uma vez que eu não possuía estudos. Comprei a briga e disse que ninguém entendia mais do instrumento do que eu [risos]. Ela fez cara feia, virou e foi embora”, relembra o músico.

Mas a oficina do “doutor” não apenas afinava e conservava os instrumentos, como também servia de escola onde Constantino dava aulas e ensinava como tocar sanfona. “Não é fácil aprender, mas depois que a pessoa pega o jeito ela se encanta e não para mais de tocar”, afirma.

E foi lá em São Paulo que o baiano ficou por mais de 30 anos. Afinou, consertou, restaurou, tocou e ensinou a arte de se apaixonar por sanfona. “Muitos instrumentos de artistas famosos da época passaram pelas minhas mãos. Hoje me emociono ao lembrar o que já fiz”, conta.

Mas com o passar dos anos, o afinador de sanfonas foi ficando cansado da agitação da cidade grande. O trânsito caótico, a poluição e a violência começaram a incomodar a vida do baiano. Foi nessa época que Constantino saiu à procura de uma cidade mais tranquila para viver e criar a família. Após as buscas, o município ‘Berço da Amizade’ encheu de encanto os olhos de Constantino.

Na década de 90, comprou um terreno e construiu uma pequena casa no Coração Criança, lugar onde vive até hoje. “Foi em Artur Nogueira que eu escolhi passar o resto da minha vida. Adoro essa cidade”, afirma.

O baiano é casado com dona Dalva e possui cinco filhos, todos criados e educados graças ao trabalho com a sanfona. “Graças a Deus consegui criar muito bem meus filhos. Todos fizeram faculdade e hoje estão formados”, conta.

De todos os filhos de Constantino, apenas um se interessou pelo instrumento musical. Hércules de Almeida não apenas aprendeu a tocar sanfona como também estudou e se formou em Música – para o orgulho do pai.

A casa do aposentado tem sanfona para todos os lados. Do quarto, passando pelo corredor, na sala, em qualquer cantinho lá tem um instrumento a vista – ao todo, são quase 30 sanfonas. Constantino diz que possui um grande estoque de peças para conserto que tiveram que ser importadas de outros países, como Itália e Alemanha. “Hoje meu estoque é tão grande que eu nem penso mais em comprar peças”, afirma.

O amor pela música e pela sanfona é tão grande que Constantino até se emociona ao mostrar um documento. O aposentado interrompe a entrevista e pede para que a esposa busque uma carteira onde guarda alguns papeis. Depois de certo tempo, dona Dalva retorna e mostra a uma carteirinha da Ordem dos Músicos do Brasil. “Faz muito tempo que tirei esse documento. Isso aqui prova que fui um músico profissional”, conta orgulhoso.

Para afinar uma sanfona, Constantino demora no mínimo uma semana. Ele afirma que é preciso muita paciência e concentração para exercer o ofício. “É um instrumento cheio de detalhes, com muitos botões e teclas, tudo interligado. Se uma pecinha quebra já compromete a qualidade inteira da sanfona. Por isso que é necessário tempo, dedicação e amor para fazer esse trabalho”, afirma.

Em mais de 60 anos de trabalho é difícil calcular quantas sanfonas já foram consertadas e afinadas pelo profissional. Constantino não contou e também não possui nenhum registro, mas acredita que o número ultrapassa de três mil instrumentos. “Teve época que não tinha como andar aqui dentro da minha casa. Quase tive que tirar os móveis para poder dar espaço para as sanfonas [risos]. É preciso muito amor e, principalmente, paciência da esposa”, conta.

A idade não assusta o aposentado. A dedicação ao oficio dá ânimo para o aposentado. “Tem vez que eu pego sanfonas quebradas, velhas, que mal conseguem produzir algum som. Depois da restauração, o instrumento fica novinho, nem fica parecendo como era antes. O prazer em ver esse antes e depois, fazer essa comparação, me alegra e me faz querer continuar até onde Deus permitir. O segredo é fazer o que a gente gosta, eu descobri isso há mais de 60 anos e agradeço todos os dias por isso”, finaliza.

Antes da conclusão da entrevista, Constantino faz questão de deixar a sua propaganda. Além de restaurar e afinar, ele ainda vende sanfonas de várias marcas. O telefone de contato é (19) 3827-5648.

Fotos: Schermen Dias

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