23/04/2011

Aquino, um completo artista

Conheça um pouco mais sobre o artista plástico e músico que está fazendo arte em Artur Nogueira (no bom sentido, claro)

Alex Bússulo

No meio do trânsito insuportável da rua Rui Barbosa, uma pequena sala se destaca. Não é nenhuma loja com vitrines de roupas caras, nem uma joalheria com preços exorbitantes; pelo contrário, o que chama a atenção de quem passa por ali é o talento de um homem.

Pinturas, desenhos, caricaturas e tudo o que mais a imaginação permitir. Em sua pequena sala, Tomás de Aquino, 58 anos, natural de Jundiaí, transmite por meio das artes uma interpretação diferente para a realidade. Sempre de bom humor, Aquino contagia quem encontra.

Entrei para conhecer seu trabalho e minutos depois tinha certeza de que ele seria meu entrevistado. Pedi seu cartão e ele abriu a carteira e me entregou um cartão branco escrito apenas “meu cartão”, sem mais nenhum contato. Depois das risadas, ele me entregou seu verdadeiro contato e agendamos a entrevista.

No bate-papo a seguir, Aquino fala sobre sua história, seu caso amoroso com as artes e sobre a ilustre tarefa de fazer humor.

COMO VOCÊ CONHECEU ARTUR NOGUEIRA? Casualidade do destino, quando ouvi falar de Artur Nogueira pela primeira vez, pensei que a cidade ficava em outro estado. Isso foi em 1998. Trabalhava em uma firma em São Paulo e fui convidado para ser chefe de uma pequena metalúrgica aqui de Artur. Trabalhei pouco tempo e logo montei a ‘Criarte’, uma escola de pintura e desenho. Para minha surpresa os alunos proliferaram, cheguei a ter mais de trinta pessoas como praticantes. Hoje sei que pelo menos três desses ex-alunos se tornaram professores de artes e sobrevivem com a profissão.

ANTES DE TRABALHAR EXCLUSIVAMENTE COM ARTE, O QUE FAZIA PARA SOBREVIVER? Nunca trabalhei sem estar envolvido com a arte. Quando menor trabalhei em uma firma de litografia e aprendi a desenhar rótulos de garrafas, depois veio o quartel e novamente estava eu envolvido com minha amiga ‘arte’, eu desenhava alvos, mapas e ilustrava palestras dos generais. Depois trabalhei numa multinacional japonesa como desenhista de tecidos. Aprendi alguns segredos da paciência e da perfeição oriental. Do desenho têxtil passei para o universo da arte mecânica, me formei pela Protec, quando vim para Artur Nogueira foi para chefiar o departamento de arte-final e acabamento técnico.

HOJE VOCÊ FAZ SHOWS COM SUA ESPOSA, COMO É ISSO? Sou divorciado e há um ano casei com a Léia Reis, que é uma grande cantora e intérprete da nossa música. Como também sou músico, violonista formado pelo UNASP, com licenciatura plena em música e educação artística, nosso amor foi um complemento maravilhoso, estamos com nosso estilo único e primamos pelo resgate das grandes canções imortais que ficaram esquecidas no passado. Estamos com a agenda repleta até agosto. Cantamos aqui em Artur Nogueira no ‘Picanha na Pedra’, em Holambra no restaurante ‘Lago do Holandês’ e estamos planejando nossa performance em São Paulo, já temos o convite para nos apresentarmos na Vila Madalena e em Alphaville. Estamos apenas começando a escalada do nosso ideal.

QUANDO FOI QUE A ARTE ENTROU EM SUA VIDA? Em 1952, no primeiro dia que conheci a luz do mundo. Vejo o mundo de uma maneira diferente, minha riqueza não é mensurada pelo dinheiro, tenho o espírito milionário.

E QUANDO FOI QUE VOCÊ PERCEBEU QUE GANHARIA A VIDA FAZENDO ARTE? Quando pequeno eu já vendia meus desenhos, sabia fazer um rosto de Cristo numa cartolina e vendi muitos desses trabalhos. A arte é um processo natural da minha existência, não me limito apenas na arte da música e na arte plástica, mas também na leitura, no jogo de xadrez, na arte de não precisar assistir televisão, na arte do eterno bom humor. Nunca estou triste!

VOCÊ VIVE DE BOM HUMOR, GOSTA DE FAZER AS PESSOAS SORRIREM. ISSO FAZ PARTE DO TRABALHO DE UM CARTUNISTA OU ESTÁ NO SANGUE MESMO? Está no sangue mesmo, o trabalho de caricaturista é apenas consequência do estado de espírito alegre. Deus foi muito generoso comigo quando me deu o dom da alegria, apesar de sofrer com as injustiças do mundo, principalmente com o sofrimento dos animais, sou uma pessoa extremamente feliz e cada vez mais faço minha parte para aliviar a dor dos que padecem.

VOCÊ CURSOU A FACULDADE DE EDUCAÇÃO ARTÍSTICA NO UNASP, AOS 52 ANOS, COMO FOI QUE VOCÊ TOMOU ESSA DECISÃO? Depois de uma desastrada tentativa de ser professor sem ter formação para isso. É claro que minha retórica era fraca e fui convidado a retirar o time de campo. Consertei minha falha correndo atrás do tempo perdido, consegui colocar em ordem minha situação escolar através do telecurso, prestei vestibular e entrei para o mundo acadêmico. Foi a coisa mais importante que realizei em toda minha vida, o mundo do saber desabrochou na minha visão, aprendi que o conhecimento é infinito e ninguém sabe nada definitivamente, aprendi que existe milhares de escolas e linhas de pensamentos. Talvez por causa de minha maturidade e experiência de vida fui um exímio aluno, embora minha religião seja outra, minha gratidão pelos amigos adventistas é imensurável. Nunca tive tantos mestres de valores incalculáveis. Me formei com 56 anos e estou fazendo pós-graduação.

COMO É FAZER ARTE EM ARTUR NOGUEIRA? Artur Nogueira é uma cidade de artistas, fazer arte aqui é uma tarefa agradável, coisa rara em cidade pequena. Sempre fui bem recebido e com todo orgulho declaro que amo nossa querida Artur Nogueira. Acredito que futuramente seremos citados nos grandes anais da história.

O QUE É MAIS FÁCIL, DESENHAR OU CANTAR? Os dois. Quando se faz o que se ama nada é difícil, é prazer.

QUAL A DIFERENÇA ENTRE RETRATO, CHARGE E CARICATURA? Retrato como o próprio nome já diz é a cópia do semblante da pessoa, a imortalização da fisionomia e do caráter através do desenho ou da pintura. Caricatura é o exagero de alguma particularidade fora do padrão normal, tornando engraçada a fuça do caricaturado e a charge é uma espécie de caricatura com conotação de crítica social ou política.

QUAL CARICATURA TE DEU MAIS TRABALHO PARA FAZER? A minha [risos]. É complicado enaltecer os próprios defeitos, a tendência é sempre melhorar.

E QUAL É MAIS FÁCIL FAZER, CARICATURA OU RETRATO? Os dois são fáceis, dependendo das circunstâncias ficam mais fáceis ainda. Quando digo fácil não estou dizendo que não tem trabalho, ás vezes fico dias e dias trabalhando uma figura, mas o prazer do envolvimento é enorme e gratificante.

A CARICATURA MUITAS VEZES SERVE COMO CRÍTICA SOCIAL E POLÍTICA. QUAL A IMPORTÂNCIA DESSA CRÍTICA PARA A SOCIEDADE? Como disse anteriormente, a caricatura quando unida a uma charge é uma ferramenta poderosa para comunicar uma realidade com humor. É um apelo que o artista faz para o bem estar da comunidade, geralmente alerta e mostra pontos falhos e ridículos da sociedade e principalmente da atitude dos responsáveis.

VOCÊ JÁ FEZ ALGUMA CARICATURA QUE A PESSOA RETRATADA NÃO GOSTOU? Teve um tempo que sofri Bulling no meu serviço, cheguei a ser alvo de chacotas por parte de dois irmãos endiabrados que infernizavam a vida de todo mundo. Projetei uma caricatura maliciosa e muito engraçada dos dois espertinhos fazendo sexo com um burro, no caso o animal era o “ativo” Tirei várias cópias e espalhei pela firma, depois de me jurarem de morte, nunca mais os anormais brincaram com ninguém e ainda me chamaram de ignorante.

QUAIS AS QUALIDADES QUE O CARICATURISTA DEVE TER? Enxergar além do físico, o caricaturista tem que ser meio psicólogo e entender a pessoa, nem sempre é conveniente realçar um complexo. Às vezes percebo que o problema da vítima é o tamanho do nariz maior que o normal, então faço de conta que não notei e desenho um nariz super delicado e bonito, para dar graça ao procedimento, aumento outra parte que não tem nada a ver, por exemplo, as orelhas. Quando o caricaturado vê a obra, fica encantado porque não notei o tamanho da sua “canapia” só que fica achando esquisito o tamanho grande das suas orelhas, no caso eu troco o complexo da pessoa… É engraçado.

MUITAS PESSOAS ACREDITAM QUE DESENHAR É UM DOM. ISSO É VERDADE? Com certeza, aliás, acho que dom, se não for trabalhado, não leva ninguém muito longe. É preciso ter dom para conseguir ter perseverança. Quem tem paciência para tocar piano, obviamente tem dom para tocar piano. Quem tem paciência para destruir famílias, tem o dom de ser escritor de novelas.

VOCÊ PRETENDE VOLTAR A DAR AULAS? Voltarei a partir do mês de agosto, serão aulas diferenciadas com o propósito de formar artistas para o futuro. Curso de formação artística. Dentro do universo das possibilidades destacarei alguns tópicos básicos que serão a ferramenta do futuro Mestre. Ainda não defini o valor do curso, pois pretendo fornecer o kit com o material e preciso fazer um levantamento de valores. Meu objetivo é conscientizar o aluno sobre o que ele vai aprender escolhendo os itens de sua preferência. Será um curso personalizado.

COMO AS PESSOAS PODEM CONHECER O SEU TRABALHO? Estou com meu atelier montado na rua Rui Barbosa, 776, em Artur Nogueira. Tenho algumas encomendas e paralelamente trabalho com meu acervo para uma exposição na Réplica da Estação Ferroviária, ainda não acertei os detalhes, mas em breve anunciarei nos jornais locais. A exposição vai mostrar várias pessoas conhecidas na cidade, algumas nem sabem que as retratei, mas lembrei delas porque são de caráter elevado e especial, ficarão imortalizadas para a posteridade. Não tenho patrocínio nem ajuda financeira de ninguém para essa exposição, tudo o que faço é por pura alegria e prazer, minha recompensa provém da satisfação que isso me traz e pela divulgação do meu trabalho.


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