14/02/2015

ENTREVISTA: Cadelo

Ele diz que é macho, mas não abre mão de passar maquiagem, pintar as unhas e sair todos os anos como madrinha da bateria da Vaca de Artur Nogueira

capa2“Enquanto eu for vivo e tiver saúde serei a madrinha da Vaca” (Cadelo)

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Alex Bússulo

O Carnaval de Artur Nogueira possui alguns personagens inconfundíveis: a Vaca, o Rei Momo, a Rainha e as Princesas, os blocos da Banda Louca. Tem também o Lelo, um senhor de 80 anos que faz questão de esquecer a idade e confeccionar o tradicional boneco que sai dando chifradas em todos que estão pela frente.

Mas ainda tem outro, um que já virou símbolo da folia nogueirense: o Cadelo, que há mais de 10 anos puxa o bloco como a madrinha da bateria. Aos 39 anos, ele brinca, anima e esbanja alegria no Carnaval de Artur Nogueira.

O nome verdadeiro é Eliandro Germano. “Mas ninguém me conhece por esse nome! Se chegar na rua lá de casa e perguntar pelo Eliandro ninguém vai saber quem é. Até a minha mulher me chama de Cadelo. Já virou meu nome”, afirma.

O apelido nasceu lá atrás, quando ele tinha 13 anos de idade. “Eu trabalhava numa loja de carros, que também vendia e arrumava tratores aqui em Artur Nogueira. Um dia chegou um freguês e pediu para eu ficar de olho no trator dele. E eu esqueci de avisar o pessoal da oficina. Aí começou a chover e acabou molhando todo o banco do trator. Quando o homem voltou ficou revoltado e começou a me xingar: ‘Eu falei praquele Cadelo olhar meu trator… eu falei… Cadelo de menino… Cadelo!’. Isso na frente de todo mundo. É claro que o xingo acabou virando apelido [risos]. Depois disso todo mundo passou a me chamar de Cadelo”, relembra.

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Cadelo sempre morou em Artur Nogueira. Nasceu em Cosmópolis, devido à falta de maternidade no município ‘Berço da Amizade’. A paixão pelo Carnaval começou cedo. “Eu tinha 14 anos quando pulei pela primeira vez na avenida. E até hoje não parei. Lembro que peguei uma camisa escura, uma calça e uma arminha de brinquedo e saí fantasiado de guardinha.”

Em tantos anos pulando o Carnaval da cidade, Cadelo diz que o grande sucesso da festa é e sempre continuará sendo a Vaca. “Sem ela o nosso Carnaval não tem graça nenhuma. Só de escutar o batuque da Vaca eu me arrepio todo. Eu me apaixonei pela Vaca quando ainda era criança. Se tirarem a Vaca o Carnaval acaba em Artur Nogueira. Eu não saio na Banda Louca. Fico na minha casa. Se a minha filha falar que quer ir ver o desfile dos blocos eu a levo, mas por vontade própria eu não vou não. Pra mim o Carnaval de Artur Nogueira poderia ser todos os dias de Vaca. De quinta a terça-feira!”, diz.

Para sair no bloco, Cadelo tem toda uma preparação especial, o que inclui até maquiadoras. “Minha vizinha, a Izonilda, e a irmã dela, a Ivonete, pintam minhas unhas e fazem minha maquiagem. Demora mais de uma hora para ficar tudo pronto. Ainda conto com patrocínios exclusivos. A loja Chocolate com Pimenta me patrocina com a roupa e a Montoya com os sapatos. Tem toda uma megaprodução”, conta.

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Todos os anos, Cadelo desfila à frente da bateria da Vaca. Segurando a bandeira oficial do bloco, ele desce a avenida sambando e rebolando – uma coreografia que desperta a atenção de foliões de várias idades. “Na hora que eu entro na avenida eu me transformo, encaro um novo personagem. Desço com tudo. O pessoal que está assistindo ou que está no meio da brincadeira também se diverte. Eu desço bom e subo ruim, totalmente cachaçado”.

Cadelo conta que teve a ideia de ser a madrinha após notar que todas as escolas de samba possuíam uma representante oficial. “Conversei com os amigos do bloco e eles toparam me colocar como madrinha da bateria. Saí o primeiro ano e estou até hoje. Já faz mais de 10 anos como madrinha”.

Mesmo dizendo que adora o desfile, Cadelo confessa que alguns foliões passam do limite. “O pessoal passa muito a mão na minha bunda. Tem gente que acha que eu sou viado. Eu não sou viado! Não tenho preconceito nenhum, abraço e quero ver todo mundo bem e feliz. Eu cansei das vezes que teve homens que acharam que eu fosse uma mulher. Me confundem muito [risos].”

Cadelo trabalha há muito tempo como frentista em postos de combustíveis de Artur Nogueira e região. Certa vez, durante o Carnaval, ele conta que depois de desfilar na avenida chegou em casa e foi direto dormir. No dia seguinte acordou, lavou o rosto e foi trabalhar. Não teve tempo de tirar parte da maquiagem da cara, muito menos retirar os esmaltes das unhas. “Quando cheguei no posto o pessoal olhou com aquela cara e começou a dar risada. Acharam esquisito, mas sabiam que tinha sido por causa da Vaca.”

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Cadelo é casado e pai de uma menina de 4 anos. “Saio para me divertir. Na brincadeira, eu passo batom e começo a dar beijos nos rostos dos homens. Só beijo homem. Mulher eu respeito, até porque eu acho que poderia não pegar bem. Não saio na Vaca pra ir atrás de mulher. Quem me conhece sabe disso. Saio porque gosto da Vaca. De estar na frente da bateria. Eu me sinto bem no bloco. Está no meu coração”, afirma.

Cadelo diz que o Carnaval de Artur Nogueira mudou muito se comparado com alguns anos passados. “Antigamente era uma brincadeira entre amigos, uma brincadeira entre familiares e conhecidos. Todo mundo conhecia todo mundo. Era uma brincadeira gostosa. Hoje, você sai na avenida e encontra pessoas que você nunca viu antes. Mas, mesmo com o passar dos anos, todos que saem têm o mesmo objetivo: se divertir com a Vaca”.

Quando questionado se um dia deixará a Vaca, ele se exalta. Abre os braços e em gestos repetitivos e voz alta, brada: “Enquanto eu for vivo e tiver saúde serei a madrinha da Vaca. E não deixo ninguém ocupar meu lugar!”


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