28/03/2015

ENTREVISTA: Andrea Parra Teixeira

Professora de Artur Nogueira fala sobre a greve dos educadores no Estado de São Paulo

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“O governo do Estado de São Paulo vem sucateando a Educação de vários modos” (Andrea Parra Teixeira)

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Alex Bússulo

Convocada há duas semanas pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), a greve reúne milhares de educadores. Entre as reivindicações, a categoria pede reajuste salarial e mais qualidade na Educação Pública.

Na última segunda-feira (23) a greve também foi às ruas de Artur Nogueira. Munidos de cartazes e faixas, alunos e professores protestaram na Avenida 15 de Novembro. Cerca de 70 pessoas participaram do ato com apitos, bandeiras e narizes de palhaço.

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De toda a rede estadual cerca de 10 professores nogueirenses aderiram até o momento ao movimento.

Para falar sobre a greve e as reivindicações, o Portal Nogueirense conversa nesta semana com a professora e representante da Apeoesp, Andrea Parra Teixeira. Formada em Letras e Pedagogia, Andrea também tem pós-graduação em Educação Especial. Filha de professora, ela leciona há 8 anos e diz que a Educação só vai melhorar com a união dos professores. Confira a entrevista:

O que os professores reivindicam? Os professores estão em greve não só pela questão salarial, apesar de que estamos sem reajuste há alguns anos. Buscamos melhores condições de trabalho e qualidade no ensino. O atual governo do Estado de São Paulo vem sucateando a Educação de vários modos, com o fechamento de cerca de 3.500 salas de aula, o que gerou a superlotação de classes com acima de 40 alunos e o corte de verbas de manutenção das escolas. Nós, que formamos os cidadãos, reivindicamos o cumprimento da lei federal da jornada do piso – 26 horas das 40 com alunos e 14 para preparação de aula e capacitação profissional – máximo de 25 alunos por sala, novas formas de contratação dos professores temporários, sem a “quarentena” e a “duzentena”, aceleração dos processos de aposentadoria, fim das perseguições aos professores nas perícias médicas, envio de verbas que supram as necessidades das escolas e, acima de tudo, uma educação que priorize a formação do cidadão.

Como está a greve no Estado? Segundo dados da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), até a última quarta-feira eram cerca de 134 mil professores, em torno de 60% da categoria. Vale lembrar que esses dados são informados diariamente, por período, para a Secretária Estadual de Educação. Por ser representante da Apeoesp no município sou informada que esse número tem aumentado consideravelmente em todo Estado, demonstrando a indignação da categoria.

Aqui em Artur Nogueira pouco mais de 10 professores aderiram à greve. Em sua opinião por que poucos abraçaram essa causa? Devido à insegurança, pois o atual governo estadual ameaça os professores que aderirem à greve perderem alguns de seus direitos. Além disso, a Secretaria Estadual de Educação mandou um comunicado proibindo o comando de greve de entrar nas escolas para conversarem com os professores, impedindo esse direito, colocando professor eventual no lugar do grevista. Vale ressaltar que essa é uma ação ilegal, pois todo o trabalhador tem direito a greve. É necessário que todos os educadores tenham a consciência que agora é a hora da mudança, se nos unirmos todos serão beneficiados.

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O ato realizado em Artur Nogueira na última segunda-feira reuniu cerca de 70 pessoas, entre alunos e professores. Tem outro manifesto programado para acontecer aqui? Estamos nos organizando para mais um manifesto, porém sem data definida. Vamos nos reunir em assembleia para definir os rumos dessa greve.

Por que é importante outros professores de Artur Nogueira aderirem à greve? Penso que a importância dos professores aderirem à greve não seja somente os de Artur Nogueira, mas de todo Estado. Precisamos devolver aos nossos alunos o desejo de sonhar e conquistar seu espaço na sociedade. O governo tem atuado apenas sobre números, deixando de lado a formação efetiva de nossos alunos, os quais apenas “passam de ano”, mas e o real aprendizado, como fica? Será que é possível aprender em uma sala com 45 alunos? Será que uma escola sem segurança e sem a estrutura dá suporte ao aprendizado? É isso que nos move para a mudança. Nós somos educadores, porém aceitando todo esse desacato do governo, qual é o exemplo de cidadania que passo para os meus alunos? Em tese, a greve não é somente “dos professores”, mas é a conscientização da maneira que está não pode continuar, precisa haver mudanças. Gostaríamos que a população nogueirense entendesse que essas reivindicações vêm de algum tempo. Apenas chegou um momento em que não conseguimos mais aturar. O sindicato faz o trabalho dele, mas os professores, enquanto classe, precisam entender que só conquistamos os nossos direitos e de nossos alunos se toda a categoria se mobilizar, pois assim mostramos nossa união.

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Tenho a impressão de que a greve não está repercutindo tanto quanto outras manifestações. Por quê? Porque a maior parte da imprensa, principalmente a televisiva, joga no mesmo time do atual governo estadual. Não querem mostrar a verdade nua e crua. A educação está sucateada, professores estão desmotivados devido à desvalorização contínua, os alunos não estão aprendendo o que merecem, o que precisam.

Tem alunos que estão sem professores devido à greve. Eles não serão prejudicados com isso? As aulas serão repostas com qualidade pelos professores titulares, assim os alunos não serão prejudicados. O problema é a forma como o governo omite a verdade para os pais. O que está acontecendo, na maioria das escolas do Estado é que nesse período de greve os alunos estão sendo amontoados em salas de aula com um professor eventual.

Como alunos e pais estão se comportando perante a greve? A maioria dos pais e alunos está junto com os professores. Eles também conhecem a realidade da educação no Estado de São Paulo. Estão inclusive participando dos atos públicos em defesa da melhoria na Educação. Durante o nosso ato de segunda-feira pudemos perceber o anseio dos pais por uma educação de qualidade. Vimos à comunidade saindo às ruas, nos dizendo o quanto é importante nossas reivindicações.

Quem apoia a greve? Além da Apeoesp, todos aqueles que são socialmente preocupados com o país, com o Estado. Todos que acreditam ser a Educação a base estrutural de uma nação desenvolvida cultural, social, política e economicamente falando.

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A principal reivindicação é que seja dado um aumento de 75,33% para equiparação salarial com as demais categorias com formação de nível superior. Por que acredita que é possível esse aumento? Isso está dentro da lei? Não é aumento, é reajuste salarial. Esses 75,33 % são perda salarial. Todo trabalhador tem seu salário reajustado periodicamente, por que o professor não?! E o que explica o governador dizer que não tem recurso para reajustar nosso salário, mas decretar um aumento considerável ao seu próprio salário e de seus comissionados?!

Vocês também pedem o fim do assédio moral. Quem causa esse assédio? O governo! Por comparar nossa busca por uma Educação de qualidade a “uma novela”. Isso não vem de ontem, mas desde o momento em que dividiu a classe dos professores em categorias (efetivos, estáveis e contratados), diferenciando nossos direitos, apesar de trabalharmos todos pelos mesmos ideais e objetivos. Outro ponto que consideramos assédio moral é a questão da perícia médica. Para o atual governo estadual, professor não tem direito de ficar doente. Se assim estamos, temos de ir, na maioria dos casos, a São Paulo para tal perícia. E se o caso for mais grave, como poderemos ir? Alguém vai vir nos buscar? Não podemos deixar de lembrar saudosamente da nossa querida professora Rosângela Lúcio, aqui de Artur Nogueira, que estava impossibilitada de ir tão longe fazer a perícia, trabalhou doente e veio a falecer. Será que tudo isso não poderia ser evitado?

Uma das reivindicações é que cada sala de aula não tenha mais do que 25 alunos. Por que reduzir esse número é importante? Há relatos de escolas com salas com 47 a 60 alunos. Veja bem: os professores devem conhecer e sanar todas as dúvidas e trabalhar as dificuldades de cada aluno individualmente. Agora é, humanamente, impossível realizar tais ações em salas superlotadas como as já citadas. Lembrando que cada aula equivale há 50 minutos, se a sala tem 60 alunos e o professor precisar de um minuto para tirar uma dúvida o que fazer com os outros 10 alunos? Questão de lógica também. Com 25 alunos o professor conseguirá atender a todos de forma igual e com qualidade.

Qual é o maior desafio em ser professor hoje no Brasil? Acredito que o maior desafio seja em formar o indivíduo, que nos é confiado, em cidadão de bem e de paz. Ensinar todas as competências e habilidades não só de disciplinas, mas também de vida. Levar esses jovens a sonhar e almejar um mundo com ideais. Sempre digo aos meus alunos que quem não tem objetivo na vida qualquer caminho serve, mas aqueles que têm foco e acreditam vencerão.

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Você, particularmente, acha que ser professor é uma profissão ingrata? Jamais! Eu diria que ser professor é a melhor profissão do mundo, pois a maior satisfação que um professor tem é encontrar um ex-aluno e ver em seus olhos o brilho de quem está encaminhado, buscando seus horizontes. Escutar um “muito obrigado por ter feito parte da minha vida” é extremamente gratificante e marcante.

Arrepende-se de ter escolhido essa profissão? Não. Nenhum um pouco! Acredito que nasci com esse dom. Venho de uma família onde praticamente todos são professores: mãe, tios e primos. E o mais engraçado é que quando nos reunimos conversamos sobre diversos assuntos, mas no final sempre fechamos com algum assunto sobre escola. Acho muito interessante, pois cada um relata suas facilidades e seus desafios e assim aprendemos um com o outro. Pelas nossas mãos passam médicos, advogados, políticos e todos os trabalhadores que fazem o nosso Brasil.


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