24/10/2019

Cirurgião de Artur Nogueira fala sobre experiência de 60 anos na profissão

Dr. Zildomar Deucher é fundador do Hospital Bom Samaritano e um dos pioneiros em cirurgias cardíacas em bebês no país

Diego Faria

Dr. Zildomar Deucher, atualmente com 85 anos de idade, completa este ano (2019) 60 anos de profissão. Ele que se tornou uma referência como cirurgião cardíaco no país, tendo atuado em outras cidades e estados brasileiros, e também outros países, escolheu Artur Nogueira para se estabelecer com a família e se dedicar à medicina. Nessa matéria, o Portal Nogueirense faz uma homenagem à esse profissional, que dedica a vida ao trabalho desempenhado junto ao Hospital Bom Samaritano (HBS).

Nascido em 11 novembro de 1933, em Bom Retiro (SC), Dr. Zildomar é filho do fazendeiro e tropeiro Fredolino Deucher e da enfermeira Leonora Deucher. Ele teve formação pré-universitária em unidades de ensino situadas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo, concluindo medicina em 1959 na Faculdade Nacional de Buenos Aires (UBA), na Argentina. Também fez pós-graduação nos Estados Unidos da América (EUA), na Universidade de Mineápolis, em Minnesota.

Com a esposa Eliacibe teve três filhos: Dr. Zildomar Jr., Dra. Liliana e Dra. Suzana, todos médicos que também seguiram os caminhos profissionais do pai. A família também deu 7 netos e 2 bisnetos à Dr. Zildomar. A  vida profissional dele teve forte influência vinda da mãe. Enfermeira e parteira, Leonora costumava levar Zildomar, ainda criança, aos hospitais onde trabalhava, despertando nele a curiosidade pelo universo hospitalar e médico. “Quando ela trabalhava no hospital eu ia junto e ali eu me imaginava um médico. Sempre estive dentro de hospitais, nasci para ser médico. Desde criança eu brincava que operava as bonecas das minhas primas, usando uma “máscara” no rosto feita com um lenço”, lembra ele com sorriso no rosto.

O conceituado cirurgião, especializado em cardiologia, sempre esteve em busca de se aperfeiçoar e buscar novidades junto à profissão. Para isso, fez contato com especialistas e pesquisadores de várias partes do mundo, sempre com um objetivo: trazer o que havia de mais avançado para a medicina do Brasil. “Onde surgia uma novidade, lá estava eu para trazer novas práticas para o Brasil. Foi assim que eu estive na África do Sul. Quando Dr. Barnard [Dr. Christiaan Barnard – cirurgião] fez o primeiro transplante de coração do mundo, em seguida fui para lá. O entrevistei, estive assistindo as cirurgias dele e do irmão dele, que também era cirurgião”, recorda.

Na década de 60, Dr. Zildomar esteve envolvido em grupos de estudo que desempenhavam cirurgias complexas em bebês acometidos pela rara doença de Baby Blue (Bebê Azul), uma debilidade do funcionamento cardíaco. O método cirúrgico, iniciado em meados de 1936, ficou conhecido mundialmente como técnica de Blalock [Dr. Alfred Blalock]. Cerca de 30 anos após o início da aplicação desta técnica, em 1966, Dr. Zildomar já recebia as instruções necessárias para aplicá-la no Brasil, sendo um pioneiro em cirurgias cardíacas em bebês e crianças no país. “Uma técnica que leva uma artéria do coração à um dos pulmões para que o sangue seja oxigenado para o pulmão, já o que sangue não saia do coração para o pulmão. Enquanto isso, a gente clampeia essa artéria e o coração fica vazio e parado, já sem sangue, para ser corrigido os defeitos dele. É a técnica da hipotermia profunda, que congela o paciente até 18°C. Muito antes disso o coração começa a bater devagar por não ter metabolismo, então para tudo e fica sem vida, até a circulação cerebral. Então o coração é corrigido e volta a esquentar de forma lenta, quando chega a 23°C – 25°C, você nota que o coração volta a bater. Uma coisa espetacular, de alta tecnologia. Quando surgiu essa técnica, eu à incorporei aqui, e segundo os livros, seriam as primeiras cirurgias desse tipo com sucesso no Brasil”, comenta. – O surgimento dessa técnica cirúrgica pode ser conferido no filme ‘Quase Deuses’ (2004 Joseph Sargent).

Posteriormente, após efetuar sua especialização nos Estados Unidos, Dr. Zildomar se empenhou em um extenso trabalho como cirurgião. Atendeu milhares de pacientes, desde ribeirinhos e povos indígenas em Belém do Pará, onde ajudou na construção de um hospital mediante obra voluntária junto à Igreja Adventista do Sétimo Dia. Também operou pessoas em São Paulo e Rio de Janeiro, somando mais de 14 mil cirurgias realizadas. Durante a década de 70, foi diretor de cirurgia cardíaca no Hospital Silvestre, situado no Rio de Janeiro. Também trabalhou na Angola e África. Já em 2002, após conhecer Artur Nogueira e região, notando a falta de uma unidade hospitalar no município nogueirense, partiu para o maior desafio de sua vida, construir um hospital que atendesse a população da cidade.

Publicação da revista americana Image sobre a expedição em que Dr. Zildomar atuou no Pará

Com muito empenho, trabalho e apoio dos filhos e do genro Sidney Dutra, Dr. Zildomar então inaugurou o Hospital Bom Samaritano (HBS) em novembro 2002, hoje o principal local de atendimento hospitalar do município. Esse profissional, em seus 60 anos de profissão, possui a mesma vontade e amor pelo trabalho de quando ainda se iniciava na medicina. Como desejo, Dr. Zildomar sempre busca trazer inovação para o trabalho desempenhado pelo HBS. “O sonho do médico é sempre encontrar a solução para a saúde da humanidade. O carinho e respeito pelos pacientes, isso nós profissionais não devemos nunca perder. O ideal de fazer do Bom Samaritano um grande hospital para Artur Nogueira e torná-lo um centro médico por excelência, isso sempre esteve na minha cabeça e no meu coração. Estamos em processo de desenvolvimento, mas quero trazer mais tecnologia para essa cidade no quesito de cirurgias de coração, cérebro e rins. Tudo o que tem de melhor e que se faz hoje no mundo com a alta tecnologia. Apesar das dificuldades, fizemos um hospital bem equipado, dedicado ao atendimento da população, e estamos sempre buscando melhorar. Investi tudo o que eu tinha aqui e não me arrependo de nada, o hospital está funcionando e o povo sendo atendido, para mim, isso é o que importa”, afirma.

Com 85 anos de idade, Dr. Zildomar Deucher continua a ter nos olhos o brilho de um jovem ávido à profissão, sempre curioso e atento às novidades da medicina. Ele comenta que está sempre lendo e se informando sobre as novas tecnologias e descobertas que acontecem pelo mundo. A dedicação às horas de atendimento no Hospital Bom Samaritano, em Artur Nogueira, sempre o faz ter a vontade de prosseguir. “Abracei a profissão e me dediquei de corpo e alma, continua sendo assim até hoje. Sempre estive presente em hospitais e centros de medicina pelo mundo em constante atualização, sempre dedicado à esse hospital (HBS). Acordo cedo, tomo meu café da manhã e venho para o hospital. Depois almoço e volto para cá, permanecendo até a noite. Faltando algum médico aqui, lá vem eu para fazer o plantão da noite e atender os pacientes que precisam da gente. Essa é minha vida e creio que um dos fatores da longevidade é isso, se manter ativo. A aposentadoria é um episódio que nem me lembro quando e porque ocorreu”, relata.

Para Dr. Deucher, o sentido da profissão e ser um médio é algo que flui no viver de cada profissional. O desejo de fazer o bem ao próximo deve estar acima de qualquer ganho financeiro ou status social que este ofício pode trazer. “Fui estudar porque desde pequeno eu tinha no coração a medicina como um ideal. Fiz inúmeras cirurgias gerais e cardíacas gratuitamente, trabalhei em regiões muito distantes, atendendo pessoas que nunca haviam visto um médico. Enquanto eu tiver uma cabeça boa, vou continuar atendendo meus pacientes com esse mesmo sentimento. A profissão me ensinou a dar valor à vida, me ensinou que todo ser humano é igual perante Deus. Em um hospital a gente aprende a ver o que é um ser humano: frágil, pequeno, que sente dor, e como médico, poder aliviar esse sofrimento, ajudar a salvar vidas e ver o brilho nos olhos de um paciente que ajudei a cuidar, é o mais gratificante para mim como ser humano”, destaca.

Para Dr. Zildomar, a medicina no Brasil e no mundo conseguiu muitos avanços através da tecnologia do século 21, porém, ele considera que o profissional deve ser mais valorizado no país. “Comecei na medicina em um tempo onde não havia ultrassom, tomografia ou ressonância magnética. Era Deus, eu, minhas mãos e alguns instrumentos. Mesmo assim, naquele tempo fazíamos cirurgias tão bem feitas como as que fazemos hoje. Um médico especialista, que teve a oportunidade de preparação dentro e fora do país ainda tem um reconhecimento maior, mas aqueles que estão começando e não possuem muita possibilidade de investir na profissão, é muito sacrificado no país. É preciso reconhecê-los, remunerá-los bem. O profissional tem que ter mais permanência em um hospital e não ficar se desdobrando em muitos turnos e muitos deslocamentos para poder trabalhar. Isso causa a exaustão do profissional, é complicado. A medicina deveria ser reorganizada e mais valorizada sim, fazemos no Brasil praticamente tudo o que se faz no mundo, e fazemos bem”, observa.

Ao final da entrevista, Dr. Zildomar deixa uma mensagem às dezenas de milhares de pacientes já atendidos por ele. “Deus continua operando milagres e eu sou apenas um instrumento nas mãos Dele. Sempre digo para meus pacientes: se cuidem, deem valor à vida e à saúde, deixem o fumo, o álcool. Eu, que sempre estive em hospitais, vejo o que esses vícios causam às famílias”, finaliza.

Como um profissional atencioso e humano, Dr. Deucher demonstra consideração a seus pacientes. Fé, esperança e os cuidados com a saúde sempre foram princípios exercidos e lembrados por ele pelos consultórios onde já passou ou onde continua a atender.

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