08/05/2016

As mães da Aidan

Neste Dia das Mães o Portal Nogueirense conversa com cinco senhoras residentes da Assistência aos Idosos Desamparados de Artur Nogueira. Saudades, aprendizado e responsabilidade foram as palavras mais citadas entre elas.

Por Rui do Amaral

Cinco mulheres. Cinco mães. Juntas, reúnem 439 anos de história. Histórias regadas a alegrias, decepções, conquistas e saudade. Muita saudade. Neste Dia das Mães, o Portal Nogueirense teve o imenso prazer de conversar com cinco mães que vivem na Assistência dos Idosos Desamparados de Artur Nogueira (Aidan) e colher informações preciosas sobre suas vidas. Por mais que cada uma enxergue de uma maneira diferente, ser mãe é e sempre será um desafio. Algumas exaltam a honra em dar à luz a uma vida, outras enfatizam que ter filhos é uma tarefa extremamente difícil, ainda mais quando as condições de vida não favorecem. Os breves relatos a seguir – afinal é impossível transcrever mais de quatro séculos de história em poucas linhas – contém diferentes versões de uma mesma missão, mostrando que para fazer o dia de uma mãe se tornar verdadeiramente feliz é necessário muito mais do que seguir protocolos em datas comemorativas.

Maria Aparecida das Neves

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Nascida em Santa Gertrudes em 1921, Maria Aparecida das Neves veio morar em Artur Nogueira há quatro décadas. Do alto de seus 94 anos, pede ajuda da filha, chamada carinhosamente de Terezinha, para recordar o início de sua vida no município. Como a maioria das famílias da época, Maria se dedicava ao trabalho no campo, mais precisamente no sítio de seu primeiro marido. Antes de chegar na cidade, Maria ajudava o esposo em uma cerâmica. “Eu sempre ajudei meu marido, antes e depois de morar em Artur Nogueira”, conta.

Do primeiro companheiro, Maria Aparecida teve quatro filhos, três meninas e um menino. Do segundo relacionamento, apenas um. Perguntada se vê os filhos com frequência, os olhos de Maria se enchem d’água e sua expressão se fecha rapidamente. Esta é uma gaveta escura de seus dias que se encontra fechada, e assim permaneceu.

O sorriso voltou em seguida, pelo carinho de Terezinha, filha que mais faz companhia. “Ela vem todo mês me ver, é minha companheira”, conta orgulhosa. Na Aidan, Maria tem a rotina tranquila. “Comemos, dormimos e conversamos. Fazemos muitos amigos aqui que acabam se tornando nossa família”, confessa. Para ela, a maior lição em ser mãe é o amor que sente por cada um de seus filhos. “Amo cada um, sem diferença. E pode ter certeza que este amor é diferente”.

Natalice Fierz de Carvalho

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“Que seja um milagre e que sirva de exemplo no futuro”. Esta foi a oração do esposo da nogueirense Natalice, quando o médico questionou quem ele queria salvar: a esposa ou o bebê, prestes a nascer. O milagre aconteceu. Natalice e o filho sobreviveram. “Tenho muito orgulho do meu filho, gostaria de vê-lo com mais frequência mas ele mora longe, em São Paulo”. Natalice, de 83 anos, criou também uma sobrinha que hoje vive na casa onde morava, em Artur Nogueira. “Sinto muita falta da minha casa. Fui muito feliz lá, mas me arrependo muito em ter voltado de São Paulo”.

Natalice viveu na capital paulista por 30 anos, onde trabalhava no processo seletivo de guardas municipais. “Era tudo muito bom, eu me sentia importante. Hoje a gente fica aqui, sozinha. Quando não temos alguém para conversar o dia fica muito infeliz”. Dentre os muitos desafios de ser mãe, Natalice destaca a tolerância. “Hoje eu choro a ausência do meu marido, que já faleceu, mas criar meu filho junto dele foi muito difícil. Meu esposo era alcoólatra e suportar isso por 40 anos foi muito duro”.

Na verdade, a vida de Natalice foi difícil desde cedo. Um acidente aos sete anos a fez ter repetidas convulsões até completar 18, quando saiu de Artur Nogueira e foi para São Paulo, onde conseguiu tratamento. “Fui e sarei, graças a Deus. Voltei depois de 30 anos, após um período muito feliz da minha vida”, conta, como se voltasse no tempo em cada frase relatada. É com orgulho de ter dado sempre o melhor possível para o filho que Natalice comemora o dia das mães. “Nunca faltou nada para ele, isso posso dizer. A única tristeza é não podermos nos ver tantas vezes como eu gostaria”.

Aurora Bratfisch

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Uma vida muito longa as vezes reserva experiências amargas. Aurora comemorou um século de vida nesta semana, e com todos estes anos de experiência, além de muitas alegrias, a dor de perder quatro dos seis filhos ao longo da vida a faz ficar com um semblante mais sério do que de costume, já que os sorrisos são marca registrada da simpática centenária.

Nascida em Cosmópolis, dona Aurora carrega consigo o fabuloso talento para costurar, ofício que lhe ajudou com a renda familiar e garantiu uma aposentadoria digna. Ao longo de sua trajetória de trabalho fez vários vestidos para noivas e hoje lamenta ter parado com a atividade. Os filhos, segundo ela, são muito queridos por todos que os conhecem. “São bons demais, graças a eles tenho hoje cinco netos. Vivemos momentos muito felizes na roça e aqui também.

Os filhos de Aurora vivem em Cosmópolis. Para ela, o maior desafio em ser mãe foi ter de lidar com a perda. “Isso cala o coração da gente, é muito difícil”, conta com uma lucidez impressionante. De um jeito manso, mostra um lado da vida quem poucos conhecem, o de viver por um século.

Maria Rita de Sá

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Mineira, Maria Rita de Sá exibe um bom humor incomum. Sem lembrar de muitos detalhes de sua vida, a mulher de 77 anos conta que o lado positivo de ter tido três filhas e dois filhos foi a ajuda para trabalhar na fazenda. “A gente era muito pobre, sempre precisava de ajuda. O bom dos filhos é que assim tínhamos mais gente para trabalhar”, confessa.

A música também esteve presente na vida de Maria Rita. Segundo ela, nunca foi profissional pois era muito pobre. “Eu cantava só para me divertir, hoje em dia esse povo que canta tem muito dinheiro. Na minha época era bem mais difícil”, diz exibindo uma blusa de lã colorida, presente de uma das filhas.

Maria Rita não esconde que o peso de criar cinco filhos é muito grande. Perguntada se sente orgulho, acena que sim, mas sem ressaltar que ser mãe as vezes pode ser uma tarefa mais trabalhosa do que prazerosa. Os filhos estão espalhados, mas a visitam frequentemente. “Não posso pôr nenhum defeito neles, quando podem vem aqui me ver. Mas não posso dizer que aprendi algo sendo mãe, quem aprendeu foram eles”, diz dando risada.

Irene Garcia Lorca

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Nascida em Cosmópolis, Irene Garcia Lorca vive há mais de 40 anos em Artur Nogueira. Hoje com 85, conta como passou por uma experiência dura que poucas mães sentiram: teve de entregar dois de seus filhos para serem criados por outras pessoas devido à falta de condições financeiras.

A primeira filha que Irene teve de entregar foi criada por uma amiga. “Ela era de confiança, só por isso que deixei. Foi muito difícil pra mim, mas graças a Deus eu conseguia ver ela algumas vezes”. A filha morreu a pouco tempo. Outro filho foi criado por uma cunhada. “Ela criou muito bem meu filhinho, nós não tínhamos como nos alimentar. Foi Deus que arranjou um lar para ele”, conta.

Irene teve mais dois meninos e uma menina, que pode criar ela mesma e que mantem contato, mesmo que pouco. “Não os vejo sempre, meu filho que ainda vive em Cosmópolis as vezes vem me ver e me leva onde eu morava, em frente à Lagoa dos Pássaros. É muito gostoso ir pra lá, revejo meus vizinhos e ficamos horas conversando. Em 40 anos nunca houve uma briga, sinto falta de sentar em frente à lagoa e observar as festanças que ocorrem lá”.


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