22/08/2016

O legado que as Olimpíadas precisam deixar

Brasil precisa de uma maior consciência esportiva se quiser ver o esporte crescer.

Michael Harteman

Não sei quantos compreenderam que o sucesso do esporte brasileiro não pode ser dimensionado pelo número de medalhas em uma Olimpíada. Muitos podem olhar para os resultados dos jogos no Rio e concluir que estamos indo bem. Será? Talvez o principal problema no Brasil seja a falta de consciência. E, nesse caso, não podemos culpar somente nossos governantes, já que a própria consciência esportiva do país é limitada. Falta o entendimento de que o esporte pode mudar a realidade de uma nação. Afinal, ele é uma ferramenta fortíssima. A insensibilidade esportiva fica comprovada olhando para o comportamento da torcida brasileira nas Olimpíadas. Tudo parecia futebol.

O esporte ensina derrota, vitória, equilíbrio, respeito, criatividade, planejamento, humildade, entre outras muitas qualidades. Um jovem que pratica regularmente uma modalidade esportiva tem reduzida, de maneira significativa, a possibilidade de se envolver com crimes e/ou drogas.

A monocultura do futebol é sintoma da falta de ídolos em outros esportes. Quando Gustavo Kuerten chegou ao topo do tênis, o número de praticantes da modalidade aumentou absurdamente. Lojas especializadas surgiram e crianças começaram a se interessar pela prática. Porém, jogar tênis nunca deixou de ser um esporte caro. Uma pena. A falta de incentivo, com raras exceções, fez com que a modalidade continuasse com um rótulo de esporte para a elite.

Na maioria das escolas públicas o esporte é visto como um passa tempo. Não são raros os casos em que o professor joga uma bola para a galerinha se divertir, enquanto dá uns leves pitacos no andamento da “partida”. Essa é a experiência superficial que a maioria das crianças tem com o esporte. Quadras, bolas, redes e tabelas de basquete sucateadas. Para não sairmos do âmbito esportivo, paremos por aqui. Pense comigo: quando a aula de matemática acaba para que se inicie a educação física, parece ou não que estamos entrando em um momento menos importante no âmbito escolar? Conhecemos bem a importância de algumas matérias, não da educação física. Não vemos essa matéria como parte essencial na formação do caráter.

Os incentivos para que as empresas invistam em esporte são poucos e, quando uma delas decide enfrentar as dificuldades e investir financeiramente, fica escondida e raramente é divulgada. Peguemos o futebol feminino como exemplo. O discurso de todos os envolvidos é de que a modalidade precisa de maiores cuidados, porém as promessas ficam só no discurso. O que vai acontecer agora que as Olimpíadas acabaram? E o público que tanto critica a falta de apoio, vai assistir caso seu clube invista em times femininos? As respostas apontam para uma hipocrisia que ninguém é capaz de assumir.

Com tanta mídia em torno das Olimpíadas, dos mais variados esportes, certamente o interesse na prática esportiva vai aumentar, principalmente nas crianças. Tal fenômeno acontece em época de Olimpíadas, e no país sede ele é ainda mais marcante. Após as Olimpíadas de Londres, o governo britânico decidiu investir mais de 1 bilhão de Libras (4 bilhões de Reais) em programas de incentivo a jovens atletas. Não é necessário ser vidente para perceber que pós Olimpíadas tudo volta ao relaxo. Medalhistas serão abandonados, os que passaram desapercebidos continuarão sendo esquecidos e os poucos programas esportivos que temos continuarão lutando para sobreviver.

Enquanto não houver interesse público no esporte, nada irá acontecer. O patriotismo olímpico é bonito, mas ineficaz em proporcionar mudança. É preciso investimento e apoio. O esporte precisa estar fortemente nas escolas e nas universidades. Só assim teremos mais Rafaelas, Gugas e Thiagos.


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