02/06/2016

Meu querido frio

OPINIÃO: A vida só é boa por causa das lindas recordações, principalmente as que marcaram para sempre a nossa vida, desde a nossa infância.

Por estes dias em que o frio começou por aqui, minha saudade foi buscar bem longe uma imagem que guardei dos meus tempos de criança, lá no interior… Ela começa assim:

Depois de muitas idas e vindas do Piauí para São Paulo na década de 1980, no dia 1º de Janeiro de 1990 mudei-me definitivamente, com minha família, para a capital nacional da fumaça, São Paulo. Fomos morar no bairro de Itaquera, Rua Caetano Braga, 53, mais precisamente no Conjunto José Bonifácio.

A mudança brusca de cultura, com gírias, comidas diferentes, casas e pessoas fechadas e um regionalismo muito forte no falar e no se impor diante das situações estressantes do dia a dia me impactaram muito. Era tudo novo, um grande desafio. Mas, eu não podia fraquejar, estava abrindo portas de oportunidades não só para mim e minha esposa, mas, também, para os nossos dois filhos, Karla Kamylla e Gleydson.

Eu, até então com apenas 25 anos de idade e toda uma vida pela frente, não imaginava o que o futuro estava me reservando. Se a gente pensar não faz, então, às vezes é apenas fazer e deixar que o tempo se encarregue de amadurecer os planos, projetos e a própria vida.

Não chegou a ser uma aventura, mas é necessário coragem e determinação, principalmente sabendo que de suas decisões dependem outras vidas. A responsabilidade e o compromisso é muito grande!

Quem conhece o nordeste e mais especificamente o Piauí sabe que é o estado mais quente, na média, do país, são 40º com sensação térmica na casa dos 44º, dependendo do mês.

Então imagine a mudança drástica de clima, na nossa vinda para São Paulo, principalmente naquele tempo em que o clima era mais equilibrado em relação às estações do ano! Para nós foi um tempo de difícil adaptação, mas, sobrevivemos!

Mudei em Fevereiro de 1991 para a fazenda lagoa bonita ou o novo IAE, (Engenheiro Coelho/SP) para estudar na faculdade adventista de teologia. Aqui parece que fazia mais frio ainda! Foram dias de muito aperto, frio, chuva, frio e chuva…

Passados os 4 anos de estudos fui chamado para trabalhar no sul do país… Mudamos para a cidade de Cascavel, no Paraná. Agora, com mais um membro da família, o Lucas que havia nascido em julho de 1994, dentro de um fusquinha, na estrada, indo para o hospital de Artur Nogueira/SP.

Agora teríamos que novamente nos adaptar. Outra cultura, outro modo de falar com palavras diferentes (Regionalismos), outro tipo de comida, gírias e outro clima! Se passamos frio em São Paulo, já estávamos imaginando o frio do Paraná, como eles dizem: “De tirar pica pau do oco!”

Enfrentamos frio de -5º em Cascavel. Frio de sair sangue do nariz! Morávamos em um apartamento com janelas de alumínio e à noite inteira era plic, plic, plic, plic… Pedrinhas de gelo batendo na janela e pela manhã, lá embaixo, tudo branquinho de gelo!

Moramos em muitas cidades, quase todas de clima agradável, mais ameno. Até que mudamos para Vera Cruz do Oeste! Os irmãos sabendo do inverno rigoroso que havia, me prepararam pequenas toras de madeiras e já fizeram uma pilha na minha casa e nos alertaram! Havia um fogão à lenha em um compartimento da casa já especialmente preparado, daí já entendemos tudo… Foi ali que nos refugiamos naquele congelante inverno. Eu ia numa igreja que ficava a uns 60 quilômetros da cidade e quando chegava lá não tinha uma viva alma para realizarmos o culto! “Tutti paura del freddo!” “Alle Angst vor der Kälte!“ – Todos com medo do frio! Muita gente de ascendencia alemã, italiana, aprendi algumas palavras na lingua deles! Lá em outra igreja, essa agora mais perto, a cerca de 17 quilômetros, a mesma coisa, nenhum cristão pro culto! Ficamos, em um desses invernos, uma semana sem poder sair de casa por causa do frio, da chuva, névoa e neblina!

Mas o meu querido frio retorna no tempo uns 45 anos. Quando eu era criança. Eu ia para o interior, na casa de minha avó materna, mãe Iza. Eu menino ali dormindo nas gostosas redes, tecidas nos teares da minha tia Pastora. Ao amanhecer, um frio gostoso bem típico da zona da mata piauiense. Daí, minha avó, tão boazinha, pegava umas palhas e sabugos de milho, fazia uma pequena fogueira, depois colocava uns gravetos e logo tínhamos uma boa fogueira para nos aquecer, eu e meus primos. Esquentava também água para lavar meu rosto e me ensinava a escovar os dentes! Enquanto nos esquentávamos na fogueira minha avó fazia bolo frito, de tapioca, bejú e cuscuz de milho! Um ovinho caipira frito… As delícias do meu interior, que eu sempre amei. Ficávamos ali até que o sol cumprisse sua parte em nos aquecer!

A vida só é boa por causa das lindas recordações, principalmente as que marcaram para sempre a nossa vida, desde a nossa infância. O meu querido frio está até hoje na minha memória e ficará para sempre. Todos nós temos, de alguma forma, uma fogueirinha acesa dentro do nosso coração.

Camilo Martins

Camilo Martins é presidente da Academia Nogueirense de Letras – ANL e da Academia Brasileira de Letras dos Escritores Adventistas – ABLEA.


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