06/06/2015

OPINIÃO: Saiba as diferenças entre identidade de gênero e orientação sexual

"Você pode virar e perguntar, que diferença faz estas informações na minha vida? Muita, a informação quebra barreiras, gera entendimento, elimina com o preconceito".

Por Raoni Zopolato

Primeiro precisamos entender que identidade de gênero nada mais é do que a não identificação com o corpo que nascemos. Digamos que uma pessoa nasce com o sexo masculino, esta pessoa ao se olhar no espelho não se identifica com o sexo que vê. É como se ela estivesse no corpo errado, como se estivesse presa em um corpo que não a pertence, seria o caso de um homem, de nascimento, que se vê como mulher. O que esta pessoa faz? Busca artifícios para se parecer ou se aproximar do gênero que se identifica, neste caso, o feminino.

Como exemplo, temos a Roberta Close, uma mulher que se vê como homem, mesmo caso de Tamy Grecthyn. É errado dizer que é uma escolha, por um simples fator, ninguém escolhe tomar hormônios, passar por diversos tratamentos estéticos, sofrer preconceito para alcançar o tão almejado corpo, mesmo que a identidade de gênero seja tratado por alguns como um distúrbio.

Desde criança nota-se esta diferença de comportamento, a não aceitação com o corpo, quem quiser ter um pouco mais de conhecimento pode assistir ao filme europeu Minha Vida em Cor-de-Rosa, que conta a história de uma criança transexual, e casos que vemos por aí de meninas que querem ser super-heróis e meninos que vão para escola vestidos de princesa.

A transição de um sexo para o outro é dolorosa, longa; sem apoio da família é ainda pior. Existem casos em que as pessoas se mutilam tentando se livrar do corpo indesejado, aplicam silicone industrial ou afins, o que é um risco enorme a saúde, e não só aqueles que desejam a metamorfose corporal de um gênero para outro se submetem a tais riscos, pessoas em busca do corpo perfeito também, mas isto será assunto de outro artigo.

Orientação sexual

Já a orientação sexual se refere a quem uma pessoa se envolve emocionalmente e sexualmente, é errado dizer que um gay quer ser mulher e uma lésbica quer ser homem, existem cinco orientações, hetero, gay, lésbica, bissexual e ainda assexuado, referente à pessoas que não tem interesse e tão pouco envolvimento sexual.

Um homem pode ser hetero, gay, bissexual ou assexuado, assim como uma mulher pode ser hetero, lésbica, bissexual ou assexuada. O que tudo isto quer dizer, que não necessariamente o gênero a qual você se identifica é o gênero que você não se relacionaria. Uma mulher transexual pode ter atração afetiva e sexual por mulheres, e por aí vai; é uma questão complexa do entendimento, mas são as diversas facetas da sexualidade humana. Um outro filme muito bom para que se tenha noção da transição sexual é Transamerica, ou a ainda A Pele em que Habito.

Agora meu caro leitor, você pode virar e perguntar, que diferença faz estas informações na minha vida? Muita, a informação quebra barreiras, gera entendimento, elimina com o preconceito, afinal, sexo todo mundo faz, você não imagina seu pai e sua mãe tendo uma relação, e assim segue com seus irmãos e amigos, tem um contexto sexual a identidade de gênero, claro, o ser humano pratica sexo, mas se deixarmos de ver o sexo como tabu, algo sujo, se enxergarmos os seres humanos por si só, veremos o amor de cada ser um pelos outros e nosso entendimento muda.

Depoimento de Paula Ferreira, mulher trans, ativista e cabeleireira: 

Enquanto criança não me sentia diferente de nenhuma outra, a não ser nas escolhas dos brinquedos, do meio social como a preferência de estar sempre com as meninas da escola, mas na puberdade que pra cada criança vem em uma fase, aí sim notei que menino eu tinha certeza que eu não era, mas sabia que fisicamente também não me encaixava com as meninas, afinal elas ganhavam seios, menstruavam e eu não.

Sou de cidade pequena do interior do Paraná, eu acreditava que igual a minha situação (de diferente) só havia a Roberta Close, a Rogéria e o Jorge Lafond no mundo todo. Era o que eu tinha de comparativo, eu não entendia que inclusive os nomes citados eram cada um de um gênero diferente um do outro, eu também achava que era tudo igual, então inicialmente me identifiquei gay, pois era o único termo que eu conhecia. Mas eu nunca me senti gay, ainda criança eu amarrava um barbante em uma mecha do cabelo na frente para fingir que era cabelo longo, aquela única mechinha satisfazia meu desejo de ter cabelos longos, eu agia como se tivesse seios iguais aos das minhas amigas.

Ao vir para Campinas tive meu primeiro contato com uma mulher transexual, pensei logo que então eu não era sozinha, outras pessoas entenderiam mais sobre toda aquela confusão na minha cabeça, mas ser transexual não é uma escolha, assim como ser gay também não é. Você vai se descobrindo, vai observando onde você se encaixa, as coisas que lhe fazem se sentir melhor, lógico que eu pirei por um tempo também. Afinal, não sou homem, não sou gay, sei que sou mulher, mas meu corpo não reage 100% como uma. Foi difícil, me senti sozinha, pois há preconceito no meio LGBTT também, e o meu grande alicerce foi minha família.

Eu passei por duas situações tensas comigo mesma, primeiro eu tinha que contar pra minha mãe sobre minha sexualidade, que até aquele momento eu me identificava homossexual, eu demorei muito pra fazer isso, fui contar aos 23 anos, porque sou filha única e achava que ela iria se magoar com a notícia. Engano meu, minha mãe foi maravilhosa e eu me arrependo de não ter feito isso antes, ela sempre foi minha amiga e depois disso muito mais. Porém, depois eu tinha que contar pra ela que meu corpo iria mudar, pois eu já havia começado um tratamento hormonal, nesse momento tive medo novamente, mas vejam bem não era medo de brigas, era medo de mágoas, tenho um amor incondicional pela minha mãe e a última coisa que eu queria era deixá-la mal. Mais uma vez me enganei, essa pessoa maravilhosa que eu chamo de mãe vai comigo até hoje nas lojas escolher roupas pra mim.

Um ano depois contei pro resto da família que posso dizer com toda certeza acho que já me viam como eu sou hoje, eu nunca fui tema de almoço de fim de semana, quero dizer, não por isso (risos).

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As coisas me aconteceram tão naturalmente que eu esqueço por muitas vezes que sou uma mulher trans, aliás não gosto muito de rótulos, mas já que eles existem digo sempre que podem dar-me o nome que quiser desde que nele haja respeito. Eu sempre fiz questão de mostrar o que há de melhor em mulheres trans, foi por isso que criei o programa “Tudo Nada a Ver”.

O reconhecimento vem pelas pessoas que se identificam com minha opinião, alguns veículos da mídia já fazem a outra parte onde nos coloca em situações marginalizadas. Todos nós estamos sujeitos a errar e acertar, mas conosco qualquer pequeno erro será cobrado de todas, como se as pessoas não tivessem vidas individuais. Desejo uma sociedade que julgue menos, pois não é nosso papel julgar. Estamos aqui pra somar uns com os outros, tornar a vida melhor, enriquecermos com o que cada um tem pra oferecer em termos de sabedoria. Ninguém é mais do que ninguém, e ninguém da mesma forma é menos que alguém. Somos todos iguais, é assim que eu me sinto, é assim que vocês devem se sentir.

Abaixo dois vídeos falam sobre grandes e pequenos desafios encontrados no decorrer da vida por transexuais e travestis e as formas encontradas por eles; o primeiro vídeo trata da escolha do nome, o uso do banheiro público entre outros direitos assegurados. O segundo é sobre relacionamento, cirurgia de redesignação de sexo, mercado de trabalho e conselhos para famílias. Confira:

 

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Raoni Zopolato é professor de inglês e organizador do Encontro LGBT de Artur Nogueira.


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