02/05/2015

ENTREVISTA: Renato Carlini

Secretário de Agricultura fala sobre desafios, objetivos e produção agrícola em Artur Nogueira

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“Quero deixar minha marca como um homem público que trouxe de volta a esperança no campo” (Renato Carlini)

 

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Alex Bússulo

É muito fácil definir o perfil do novo secretário Municipal de Agricultura. Renato Carlini é aquele tipo de homem que não faz cara feia para os novos desafios. Após ser vereador, ter idealizado a Expo Artur e o Cultura Rock, agora ele assume um importante setor do município.

Ele foi chamado para compor o governo Capato e assumiu no último dia 16 como secretário de Agricultura de Artur Nogueira.

Mesmo sendo um apaixonado por rock’n’roll nunca abandonou sua raiz caipira. Apelidado de ‘cowboy roqueiro’, sempre foi agricultor, produzindo atualmente mandioca e milho em um sítio da família no Bairro São Bento.

Na entrevista desta semana, Carlini fala sobre os principais desafios enfrentados pela Agricultura e como pretende ser lembrado futuramente. Confira:

Qual o maior desafio que você está enfrentando como novo secretário de Agricultura de Artur Nogueira? A maior dificuldade hoje é fazer uma ponte entre os dois lados, que é do agricultor e do poder público. O município tem inúmeros problemas para serem resolvidos. O agricultor também tem vários problemas, como clima, economia, interferência do governo federal, enfim, problemas têm de sobra. Nesse primeiro momento estou fazendo análises e, em conjunto com outras secretarias municipais, estou lapidando projetos já existentes. Consequentemente trazendo uma melhora para o produtor rural e também para os serviços públicos.

Qual o cenário a Agricultura nogueirense? A Agricultura vem sofrendo várias transformações ao decorrer dos anos na parte da produção. Nesses últimos anos houve a migração de áreas que, até então cultivavam laranja, para a cana-de-açúcar. Também houve um crescente na produção de milho e mandioca. Mesmo assim a laranja ainda ocupa um lugar de destaque, sendo a nossa principal produção agrícola. Em segundo, vem à cana, ao menos por enquanto. Temos a parte de estufas de flores, também pequenos produtores de diversas frutas, tais como goiaba de mesa, pêssego, pitaia, figo da índia, caju, maracujá, entre outros.

No início do mês o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) divulgou um relatório que associava a exposição à pesticidas, como glifosato, ao câncer. Pretende incentivar a agricultura orgânica no município como uma forma de proteger a saúde dos produtores? Temos que interpretar essa questão de duas formas. A Agricultura moderna, com alto volume de produção, necessita de agroquímicos e também de produtos transgênicos, pois a quantidade de pessoas existentes que necessitam de alimentação exige alta produção. Seria impossível, e já é provado isso cientificamente, você ter uma produção orgânica nesses volumes. Lógico, a saúde, tanto do agricultor quanto do consumidor é muito importante. Mas associar ao câncer apenas a produtos derivados agrícolas aos quais usam defensivos é um pouco radical, pois as pessoas não se dão conta da questão da poluição do ar, que é altíssima na nossa região, também a radiofrequência causada por celulares e outras transmissões, que os cientistas já comprovaram terem ligações com vários tipos de doença, mas, com certeza, tem que se haver um uso de agrotóxico respeitando o meio ambiente. O qual necessita de técnicas de aplicações, prazos de carências para consumo, em conjunto com a tecnologia que já existe e os produtores usarem EPI (equipamentos de proteção individual) para não se contaminarem. Com relação aos produtos orgânicos, em cultura de pequena escala, como hortas, com certeza é viável e, sem dúvidas, é um produto melhor para ser consumido. Mas, o consumidor sempre compra produtos com os olhos e, geralmente, os produtos orgânicos não são os mais bonitos.

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A diminuição do uso de pesticidas tem resultado direto na qualidade da água dos sítios. Não seria um ponto a favor debater mais a questão dos orgânicos? O debate sempre é bem-vindo. Teremos que ver o resultado se é viável economicamente, tanto para o produtor quanto para o consumidor. É uma questão complexa. Muitas pessoas falam a respeito, mas conhecem pouco a realidade.

A crise hídrica do ano passado prejudicou os produtores. Muitas culturas tiveram meses de atraso e a qualidade comprometida. Qual medida seria eficaz para sanar o que se viveu em 2014? Teríamos que pensar primeiramente em ter uma reserva financeira para poder passar anos de crises. Não utilizar créditos de cooperativas e bancos, para não ter dívidas a pagar contando com a produção. Ter uma diversificação de culturas, utilizando frutas em pequenas escalas, visando o mercado local, com alto valor agregado, as quais é só observar as prateleiras dos mercados e vocês já saberão quais são, como já citado, frutas produzidas aqui em Artur Nogueira. Com isso quero dizer que essas pequenas produções vão servir como recursos nas horas difíceis e a viabilidade de irrigá-las utilizando-se de sistemas de irrigação por gotejamento, os quais consomem pouca água, torna-se uma realidade. Outra alternativa, também em questão da água, é a construção de tanques em áreas secas, tipo cisternas revestidas de plástico, para acumular água de chuva que se desloca pelo declive da propriedade.

O cenário deste ano é mais positivo? Sem dúvidas! Porque o período chuvoso atrasou, mas está sendo suficiente para o desenvolvimento de cereais e frutas. Com certeza teremos boas produções. A única preocupação fica mesmo com as dívidas passadas dos produtores que, acredito, demorem cinco anos ou mais para estabelecerem os patamares anteriores a 2014.

Quando se fala em água se tem a Agricultura ou como uma vilã ou como uma amiga da crise devido aos gastos usados para o manejo. Como fazer uma Agricultura amiga da água? Primeira coisa, eu não acredito que seja apenas a Agricultura a vilã nessa história. Pense bem, cada casa e cada metro de asfalto que é construído cria uma barreira de água com as nascentes. Muitas cidades do interior de São Paulo, incluindo até mesmo a capital, nunca se preocuparam em preservar as nascentes, visto que as mesmas aterraram, asfaltaram, desmataram. O próprio cidadão jogando lixo e entulho em todos os cantos dos municípios está causando tudo isso também. Sem falar da água que é consumida pelas indústrias. É um problema de todos, não apenas da Agricultura. Não se esqueçam de que esta água é utilizada para produzir alimentos, que é consumido nas cidades. Lógico, podemos melhorar, utilizando de sistemas de irrigações que já existem aqui, que consomem pouca água. Exemplo: micro aspersão, gotejamento e ramais de distribuição de água sem desperdício.

A mesma crítica se vale ao que diz respeito ao meio ambiente. Em 2012, quando entrou em vigor o novo código florestal, ficou decido que as áreas de reserva legal e de proteção permanente (APP) iriam se valer da medida dos rios para calcular a extensão obrigatória, sendo reduzida em muitos casos. Ambientalistas se colocaram contra dizendo que a medida favorecia o desmatamento. De que forma avalia o texto? As áreas não serão reduzidas. Serão usadas de compensação em outras áreas desmatadas. Mas isso ainda será, e deve ser, muito discutido. Apesar de entrar em vigor em 2012 ainda estamos na pendencia de uma resolução do governo estadual, a qual determinará os locais a serem reflorestados. Eu prometo que vou brigar muito nos órgãos estaduais, utilizando todas as ferramentas, para que o produtor não seja prejudicado. Não sou a favor do desmatamento. Acredito que áreas produtivas do interior de São Paulo devem continuar produzindo ou os governos estadual e federal devem indenizar os produtores pelas percas das áreas.

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No ano passado o governador Geraldo Alckmin falou sobre a Agricultura Familiar e citou a importância das famílias que permanecem com a atividade no campo. Mas alguns produtores alegaram que o cenário político e econômico não favorecia essa permanecia. Como avalia os incentivos dos governos estadual e federal aos agricultores? Com relação a Agricultura Familiar de uns anos para cá está ocorrendo vários incentivos, como o PENAI, que introduz alimentos produzidos no próprio município na merenda escolar, além de proporcionar uma melhor qualidade do alimento para as crianças o agricultor recebe valores melhores do que encontraria no mercado convencional. Com isso estabelecem receitas que ficam no próprio comércio local. Existem outros programas do governo estadual onde nós, da Secretaria Municipal, em conjunto com outros setores, estamos trazendo para Artur Nogueira.

Você também é presidente da Expo Artur. Um evento que começou em 2006 com a proposta de promover o comércio, a cultura, a indústria e, inclusive, a agropecuária. Mas, com o passar dos anos, aquilo que era para ser uma exposição do que é produzido no próprio município se transformou em uma festa de peão. Por que isso aconteceu? Não seria interessante uma feira que expusesse nossos produtos, neste caso, expondo aquilo que é produzido na Agricultura? A Expo Artur foi criada com o objetivo de fomentar a economia local e mostrar nosso potencial de produção agrícola, pecuária, comércio, indústria e cultura, por isso que uniu-se três entidades: Associação dos Produtores Rurais (APR), Associação Comercial e Empresarial (Acean) e a Associação de Cavaleiros (Acan). Algumas pessoas dedicadas e envolvidas nessas entidades fizeram o possível, para não dizer o impossível, para que o evento acontecesse nestes moldes. Com o passar do tempo vimos que a população nogueirense não pensava igual a gente. Hoje, se o evento se tornou uma festa de peão não foi culpa nossa, mas sim a vontade de todos. Estou convicto que temos capacidade de produção de frutas das mais variadas, em conjunto com a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI) vamos trazer novas culturas para Artur Nogueira e também restabelecer parte da citricultura de mesa. Acredito que serão necessários alguns anos para essa produção tornar-se viável. Depois desta primeira etapa, podemos transformar Artur Nogueira na cidade das frutas.

Como secretário de Agricultura você também passa a coordenar a Feira Municipal, que além de ser tradicional, já se tornou referência turística, atraindo aos domingos pessoas de toda a região. O que poderia ser feito para melhorar essa atividade? Lembrando que há anos ela era realizada na XV de Novembro e foi transferida “temporariamente” para a Duque de Caxias, onde permanece até hoje. Bom, marquei uma reunião para a próxima semana com os feirantes de nosso município. Vamos fazer o possível para tornar a feira um ambiente mais bonito e organizado, prezando o feirante e o consumidor. Não vejo uma mudança de local, mas sim uma melhor estruturação para o espaço atual.

Como você quer ser lembrado quando deixar essa Secretaria? Primeiramente, antes de qualquer definição, agradeço a confiança do prefeito Celso Capato em minha pessoa, pois sei que a responsabilidade é muito grande. Espero vir somar a todo trabalho que está sendo desenvolvido no município, trazendo uma melhor qualidade de vida aos agricultores, fixando seus filhos e netos na área rural. Sempre acreditei na roça. Quero deixar a minha marca como um homem público que trouxe de volta a esperança no campo. Espero que, em conjunto com as outras secretarias municipais, consiga realizar o sonho de tornar o campo viavelmente econômico, tendo um retorno próspero para todos.

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