08/12/2017

A empresária de Artur Nogueira que transformou o luto em inspiração

Em 2017, Andrea Capatto perdeu a mãe e o pai em 45 dias – mas supera a dor ajudando e inspirando outras pessoas

Alysson Huf/Leonardo Saimon

“Minha família é a minha base, o meu início, o meu meio e meu fim.” Andrea Capatto nunca passou um Natal ou Ano Novo longe dos pais. Assim como suas três irmãs, a empresária nogueirense cresceu muito ligada à dona Áurea e ao seu Oswaldo, com quem aprendeu preciosas lições de amor, bondade, perdão, altruísmo e responsabilidade. As festas de fim de ano em 2017, no entanto, terão um sabor muito diferente.

Sentada com as pernas cruzadas sobre o sofá cinza estampado da sala, Andrea usa roupas de academia – alguém já viu ela usar outro tipo de roupa? – e recebe com muita simpatia os convidados. Oferece água, H2O (“tem menos açúcar que os refrigerantes”) e sorri muito, como sempre. É fácil ficar à vontade naquela sala, cujas paredes de cores sóbrias ostentam retratos da família.

O motivo da conversa é bom. E ruim. Rende lindos sorrisos de gratidão, mas não sem antes passar por um choro doído e profundo. Um pranto que não consegue ser contido, que não pode ser guardado – precisa ser externado. Andrea tenta segurar as lágrimas, porém elas são vertidas na medida em que tenta impedi-las.

Entretanto ela não desmorona.

O ano de 2017 não será esquecido por Andrea, nem por sua família. O pesadelo começou numa terça-feira de outubro do ano passado na forma de um diagnóstico: câncer de mama com metástase na cabeça e no pulmão da mãe. Quando soube do estado de saúde de dona Áurea, Andrea sentiu o chão sumir sob seus pés. Ela estava a caminho de uma aula na academia.

A primeira coisa que fez após receber a notícia foi orar. “Pedi muito para que Deus olhasse por minha mãe e por toda a família”, lembra. Apesar do baque, Andrea honrou os compromissos agendados e partiu para São Paulo (SP), onde os pais moravam.

A família inteira estava consternada. No início do ano, a empresa do seu Oswaldo foi fechada, e o convênio que ele e sua esposa tiveram por 30 anos com um plano de saúde também foi encerrado. Estavam à mercê de suas próprias economias e do Sistema Único de Saúde (SUS). “Era desesperador, tudo era desesperador”, conta Andrea.

No dia seguinte ao diagnóstico, a família correu atrás de algum tratamento pelo SUS. Mas dona Áurea não estava passando bem naquele dia, de forma que o dia acabou com todos exaustos e nenhum tratamento agendado. “Foi um dia muito difícil”, afirma a filha, com o rosto molhado de lágrimas.

Na quinta-feira, a família descobriu que amigos haviam formado grupos de oração na igreja e nas redes sociais. Centenas de pessoas estavam envolvidas, intercedendo todos os dias por dona Áurea. “Isso me deu uma força muito grande. Era uma energia maravilhosa”, Andrea fala esboçando um sorriso. Essa iniciativa a marcou profundamente.

Na sexta-feira, souberam que dona Áurea havia sido aceita como paciente no Hospital do Câncer de Barretos, onde ela deu entrada quatro dias depois. “É um lugar maravilhoso. Tenho uma dívida de gratidão com aquele hospital. O que eu vi ali, nunca vi em outro lugar. A forma humana e preocupada como te tratam, a dignidade, o respeito, a qualidade. Eu só tenho a agradecer a eles”, explica a empresária.

São Judas Tadeu

Em janeiro de 2017, dona Áurea passou por uma delicada cirurgia na cabeça, de onde foi retirado um tumor de mais de 8 cm. Ela saiu muito bem da sala de operações. Andava e falava normalmente. Tanto que recebeu alta e ficou na casa de Andrea por três meses, fazendo fisioterapia. Três meses.

“De repente, em questão de um mês, ela parou de andar, depois de falar e começou a ter dificuldade para entender as coisas que se passava ao seu redor. Ela tinha apenas alguns momentos de consciência, como se estivesse desligando”, relembra Andrea. Desesperada, a família correu com ela mais uma vez para o hospital em Barretos (SP).

Dona Áurea sofreu uma atrofia cerebral. Ela jamais voltaria a andar ou falar. E o dia em que os médicos explicaram isso também era uma terça-feira, como a do diagnóstico. “Foi um dos piores dias para mim. Eu ajoelhei e pedi para Deus curar minha mãe”, conta Andrea tentando segurar o choro mais uma vez. Ela sempre acreditou que sua mãe se recuperaria, e costumava dizer à dona Áurea que ela ainda ajudaria muitas pessoas.

A mãe voltou para casa, onde recebeu cuidados da família. Mas o quadro piorou gradativamente, e ela teve que voltar ao hospital de Barretos. Os familiares estavam aflitos, e os médicos, sempre atenciosos, conversavam com eles. Mas as notícias foram as piores possíveis.

Dona Áurea não ia sair do hospital com vida. Não havia mais o que pudesse ser feito. Só poderiam dar a ela conforto, e é isso que foi feito. Andrea foi até o leito de sua mãe, segurou a mão daquela mulher frágil que havia tanto lutado por ela, e cantou “Como é grande o meu amor por você”.

Os médicos encaminharam dona Áurea para o Hospital São Judas Tadeu, um braço do Hospital do Câncer de Barretos dedicado a dar qualidade de morte aos pacientes. Enquanto via sua mãe ser tirada da ambulância, diante de uma grande imagem do santo que dá nome ao lugar, Andrea lembrou-se da devoção da mãe ao santo das causas perdidas.

Seria ali que ela passaria seus últimos dias na Terra. Especializado em cuidados paliativos, o local possui uma infraestrutura de ponta e atendimento diferenciado. É um lugar que respeita as famílias desenganadas, proporcionando conforto e carinho aos pacientes e seus entes queridos. E isso tocou o coração de Andrea.

No fim, Andrea e uma irmã estavam com dona Áurea no quarto. Mais uma vez, ela segurou a mão daquela que a criara com tanto amor e agradeceu por tudo. “Eu te amo, mãe”, disse ela. E, nesse momento, dona Áurea deu seu último suspiro. Eram cerca de 16 horas de uma sexta-feira.

Dona Áurea foi cremada. Depositaram suas cinzas em uma urna ecológica. Ela se tornará uma linda árvore de flores.

“Papai vai com a mamãe”

No dia 15 de julho, a família foi buscar as cinzas de dona Áurea. O seu Oswaldo, que acompanhou de perto toda a luta e foi quem mais sofreu com toda a situação, chorava muito naquele dia. No carro ele falou às filhas que precisava descansar. “Me levem para pescar”, pediu. O desejo foi acatado de imediato e, apenas alguns dias depois, estavam na praia para a pescaria.

Era um lugar tranquilo, perfeito para colocar as ideias no lugar e aproveitar alguns bons momentos com a família. Estavam todos mantendo vivas as boas lembranças da mãe, que há pouco os deixara. Numa quinta-feira à noite, saíram para jantar. Estava tudo certo.

Mas Oswaldo dormiu sem sentir qualquer febre na quinta e acordou com uma pneumonia severa na sexta-feira. Aconteceu de forma repentina, sem aviso, sem sinais, sem tempo para reação. A família havia acabado de acordar, e ninguém fazia ideia do que se passava com o patriarca.

Ele, então, chamou as filhas no quarto e disse: “Papai está indo embora. Me perdoem, mas o papai vai com a mamãe”. Ele começou a ficar roxo, e mais roxo. Seu semblante estava terrível, e a família entrou em desespero. Ninguém entendia o que estava acontecendo.

Correram para o hospital, onde os médicos conseguiram estabilizar temporariamente o estado de seu Oswaldo. Nem eles entendiam como o quadro de saúde do pai da família havia se desenvolvido tão rápido, mas tinham consciência de que ele precisa de uma UTI, e providenciaram uma rapidamente.

O fato é que seu Oswaldo havia sido destruído pela dor de perder a esposa. Ele desistira de viver. Sua saúde piorou progressivamente, sem que qualquer médico pudesse reverter a situação. Nem os apelos da família adiantaram. E 45 dias após perder a mulher que amara por toda a vida, ele partiu para reencontrá-la.

“Ninguém está preparado para uma coisa dessa”, comenta Andrea, reflexiva e cansada de segurar o choro.

“Nesse momento, eu tinha dois caminhos. Um era me afundar numa tristeza sem fim. O outro era acreditar num Deus maravilhoso que apenas permitiu o encontro deles, porque ninguém cuidava do meu pai como minha mãe cuidava”, explica. “Um dia a gente vai entender o porquê de tudo isso”.

Inspiração

Tendo escolhido o segundo caminho, Andrea manteve a postura positiva e o sorriso constante que a caracterizam – ainda que, de vez em quando, se permita a chorar a morte dos pais quando está em casa. Tudo o que ela conquistou teve apoio e incentivo dos pais, que investiram nela sem pensar duas vezes.

“Não posso simplesmente desistir. Vou honrar o que eles fizeram por mim”, destaca.

Enquanto sua mãe estava internada, Andrea soube que o Hospital do Câncer de Barretos tem um custo mensal superior a R$ 30 milhões. Desse valor, apenas R$ 15 milhões são repassados pelo governo à instituição. Por isso, a unidade depende de ajuda de artistas e de iniciativas que visem angariar fundos para a manutenção do hospital.

Andrea trouxe para Artur Nogueira um projeto de arrecadação de lacres de latinhas de alumínio. A ideia foi abraçada pela Escola Municipal Aparecida Dias dos Santos, que colocou em seu plano pedagógico de 2017 uma gincana para coletar os lacres. Todos os alunos se envolveram na brincadeira, que conseguiu ajuntar mais de 82 kg do material.

Juntamente com o que foi angariado em outros pontos da cidade, esses lacres foram encaminhados à Barretos (SP). Lá, uma ONG negocia o material reciclável e doa todo o dinheiro para o Hospital do Câncer. O objetivo é que o projeto se repita nos próximos anos em mais e mais escolas.

Em outubro, ela participou de um evento de conscientização sobre o combate ao câncer de mama, em Artur Nogueira. Ela fez uma palestra sobre o tema e deu uma aula de zumba para os presentes, que, além de se informarem, conseguiram se divertir.

Além disso, Andrea continua a mil com sua academia, a Corpo Informa. Recentemente, ela inovou ao promover um “aulão” ao ar livre com alunos da academia e educadores físicos. O evento movimentou a região da Lagoa dos Pássaros e repercutiu grandemente nas redes sociais.

Apesar disso, Andrea não tem a pretensão de ensinar qualquer coisa a alguém com a sua atitude, nem de ser um exemplo. “Eu não acho que minha dor seja maior que a de qualquer outra pessoa. Dor não se mede. Cada um tem uma maneira de lidar com isso”, afirma. Ela ressalta que não é por conta do que lhe aconteceu este ano que decidiu agir dessa maneira.

“Eu sempre fui assim”, enfatiza. E o motivo para ser assim ela sabe muito bem: “Minha família. É por causa dela que eu sou o que sou hoje”.

Oswaldo e Áurea, um amor além da vida

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