11/01/2015

Cruzes localizadas na zona rural de Artur Nogueira revelam costumes religiosos

Fiéis frequentam os locais para rezar e fazer homenagens a dois personagens que compõe parte da história do município.

Por Isadora Stentzler

Os termômetros beiravam os 35°C quando o carro estacionou na rua de areia que levava ao interior dos canaviais da Usina Ester, no bairro Mato Dentro, em Artur Nogueira. Seu Juca Mandu, de bermuda e camiseta desabotoada até o meio do peito, saiu lentamente do veículo. Apoiou os pés no chão, passou a mão nos ralos cabelos brancos, levantou-se e caminhou a passos compassados até a cruz de madeira fixada junto à rochas no pé de uma grande árvore. Com reverência, prestou minutos de solene oração. “É pela alma daquele menino que morreu aqui.  Ele não tinha pecado, né? Nós é que somos pecadores. Um menino daqueles está com Deus agora. Um anjo!” Então colocou a mão no peito e relembrou a história.

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Há cerca de 100 anos, um carro de boi fazia o mesmo trajeto na estrada de areia levando um menino e seu pai. O cenário não abrigava as canas de açúcar que agora cobrem toda a área. Provavelmente, havia apenas mata com algumas clareiras. E ali, um acidente tiraria a vida do garoto. Despreocupado e frouxo em sua viagem, o menino não ligou para a instabilidade do veículo que ultrapassava os buracos do caminho. Em um desses trechos desequilibrou-se e caiu do carro de boi. Fosse só a queda, a criança teria voltado com o pai. Mas não.  O veículo passou por cima dele, matando-o naquela mesma estrada de areia que hoje faz divisa com os canaviais da Usina Ester.

“E a cruz foi deixada como lembrança”, detalha Mandu. “É porque se acredita que a alma da pessoa depois que morre fica vagando. Com a cruz ali, ela recebe um descanso.”

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O local onde está a cruz parece um refúgio. Acolhida pela sombra da grande árvore, ela foi fixada em fendas de pedras que a apoiam. Também não está abandonada. Santos, rosários e flores artificiais enfeitam a cruz e mostram que ali se trata de um ponto de fé. Mandu, que tem 79 anos e morou 21 anos na região, dá exemplos: “Quando faz muito calor, sei de gente que vem e joga uma bacia de água na cruz. É pra Deus mandar chuva. Uma crença do povo da roça”.

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A história já é contada há anos, sempre sem saber da idade e do paradeiro do garoto. O único nome citado é Caroldino, homem que supostamente guiava o carro de boi.

Mas Mandu também diz que no mesmo local onde está a cruz do menino outras coisas aconteceram. “Um sobrinho meu namorava uma moça que morava por aqui. E um dia, indo embora da casa dela, a porteira se abriu. Abriu para ele. Abriu e fechou. E aconteceu aqui, bem perto da cruz do menino.”

Porém a cruz do menino não é a única dos terrenos da Usina Ester. A 700 metros dali, outra, esta de ferro.

A cruz da escrava

“Isso aconteceu há 200 anos com a escrava da minha bisavó”, narra Mandu mais uma história.

Era noite, véspera de festa de São João. O carro de boi saía da casa de dona Ana Alves, bisavó de Mandu, carregado com alimentos para a comemoração. A festa seria ali perto, na casa de uma das filhas de dona Ana. Com o carro cheio, Ana e a escrava, lembrada como Inhanja, seguiram para uma viagem que seria curta.

Subiram pela estrada de areia 500 metros. Ali, com árvores vigiando o carro de boi que passava, Inhanja enfartou. Nunca mais comemorou com Ana as festas de São João.

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“Quem me contou foi minha avó. Mas nem minha avó chegou a conhecer a escrava. Ela só sabia da história. É que depois foi deixado uma cruz de madeira na beira da estrada, bem onde ela morreu. Era madeira boa, entendeu? Mas a Usina comprou aquele lugar, e como tava só o toco da cruz, a Usina colocou uma cruz de ferro. Isso foi lá pela década de 50.”

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A cruz está no local onde Inhanja morreu. É de ferro e o tempo a deixou enferrujada. Ao vê-la, Mandu copiou os movimentos feitos em frente à cruz do menino. Orou ali. Tocou no peito. Fechou os olhos. Tocou na cruz. Para ele, um local a ser respeitado. “Toda vez que passo aqui eu rezo pela alma dela”, e repete a frase com solenidade e respeito no olhar.

É que as cruzes fazem parte de uma história ainda não registrada, de um povo nogueirense que viveu há muito tempo aqui.

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