25/09/2016

Arquiteto fala sobre casa completamente ecológica construída em Artur Nogueira

Andrew Martins conta os avanços das técnicas sustentáveis de habitação.

Rui do Amaral

Fotos: Diego Faria

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Sustentabilidade. O termo, que há alguns anos era um tanto desconhecido, hoje é discutido com frequência. Mesmo não sendo tão utilizado em rodas de conversa mais informais, é citado constantemente nos principais veículos de comunicação, fóruns e debates ao redor do mundo. E não é por menos. Cada vez mais se ouve falar de medidas que visam combater os diversos tipos de poluição, ou simplesmente algumas ações mais simples que podem ajudar a tornar nosso dia-a-dia um pouco mais ecológico.

Uma das novas tendências no combate ao consumo desenfreado de combustíveis fósseis é a construção de casas ecológicas. Utilizando de tijolos que não necessitam ser queimados (o que poupa um número absurdo de árvores), bambu e paredes de terra, estas residências não devem nada para uma casa feita de puro concreto.

Para explicar um pouco mais sobre o assunto, o arquiteto especialista em casas sustentáveis Andrew Martins nos conta, enquanto mostra a residência que está construindo para morar, na área rural de Artur Nogueira, as possibilidades que uma casa construída pensando em sustentabilidade proporciona – além, é claro, da economia que pode ser feita quando se alia construção civil com natureza. A primeira vista, já dá para ver que a casa que Andrew pretende morar é completamente diferente da maioria das residências. Com um desenho que alia a modernidade ao rústico, a habitação possui paredes feitas de barro e tijolos ecológicos, além de beirais feitos de bambu. Nos próximos meses, a casa ainda receberá um telhado verde, feito de mudas de amendoim. Confira mais alguns detalhes sobre as técnicas ecológicas de construção nesta breve entrevista.

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Quando foi que você desenvolveu o interesse pela arquitetura? Meu pai foi desenhista de nanquim (desenho a mão), fiz desenho por correspondência pelo Instituto Universal Brasileiro. Daí adiante fui desenvolvendo outras técnicas como desenhos artísticos, grafite e a própria Arquitetura.

Você sempre se preocupou com sustentabilidade? Quando foi que começou a construir casas ecológicas? Nasci em uma cidade chamada Altamira/PA, no meio da Floresta Amazônica e tive a infância cercada por natureza viva, criada por Deus, a qual sempre me atraiu. Sou formado pela Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), a primeira faculdade do Brasil a ter os cinco anos de construção com terra na grade acadêmica. Já tinha visitado várias cidades históricas, mais quando vi de perto como que se fazem paredes de terra crua fiquei fascinado.

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Qual a principal diferença entre uma residência comum e uma ecológica? Conforto térmico e acústico. Pegada ecológica do proprietário (consumo vs. planeta). Além de atribuição climatológica do microclima, permeabilidade da área em uso, baixa resíduo, etc.

Nos fale algumas características desta sua residência. Bom, eu tente torna-la o mais ecológica possível. As paredes são feitas de duas formas: ou são desenvolvidas com uma liga de barro que nós desenvolvemos que é baseada nas casas de joão-de-barro, ou de tijolos ecológicos. As vigas e beirais são feitos de bambu que, ao contrário do que a maioria pensa, é muito resistente. se ele não tomar sol nem chuva, dura a vida toda. Ainda faltam alguns detalhes para serem terminados, como o telhado, por exemplo. Ele será todo verde, com amendoinzeiros plantados sobre ele.

Como são feitos os tijolos ecológicos e as paredes de barro? Nas paredes de barro utilizamos uma técnica, como dito anteriormente, parecida com as casinhas de joão-de-barro. Amassamos o barro com água e adicionamos as fibras, que mantém o material reforçado. As paredes feitas com estes blocos de barro podem ficar de várias formas, dependendo do gosto do cliente. Eu, por exemplo, alisei apenas um pouco, para manter as ondulações naturais do barro, mas dá para deixar completamente liso também. Já os tijolos ecológicos são compactados e vai um pouco de cimento. A principal diferença entre eles e um tijolo normal é que estes aqui não são queimados. Para você ter noção, queima-se 700 árvores para produzir um tijolo convencional.

Qual o preço para se construir uma residência com estas características? Muito da engenharia e arquitetura na área de economia depende de um bom estudo de projeto, porém a lógica de construir uma parede sem tantas camadas para alisa-la como chapisco, emboço, reboco, massa lisa, tinta e mais mão de obra em cada um destes itens onera muito a obra. Só de fazer uma parede que já sai da forma quase pronta é uma economia. Existem pesquisas que mostram valores de 10 a 25% de economia.

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À esquerda, a parede formada por blocos de barro. Já a direita, os tijolos ecológicos.

A longo prazo, que cuidados uma residência ecológica exige? Manutenção normal, a não ser que tenha telhado verde e tintas de terra. Aí existe uma manutenção a mais. Os bambus que ficam expostos ao Sol e a chuva necessitam ser revestidos por um verniz. Eu utilizo um verniz natural que desenvolvo com mamona, para não utilizar estes convencionais que são feitos de petróleo ou solvente.

Eu já possuo uma residência, mas me preocupo com sustentabilidade. Existem ações que podem tornar minha casa um lugar mais ecológico e sustentável? Com certeza. Reformas sobre vistoria de uma profissional da área já podem resolver algumas questões. Tintas à base de água e não de petróleo e solvente, reciclagem de água, captação de água da chuva, etc. Nesta residência que estou construindo, por exemplo, a fossa também é sustentável. Os dejetos são levados para uma área que servirá para alimentar uma pequena plantação de bananeiras. Com isso, fechamos um ciclo e a natureza resolve por si só.

Como se deu a escolha da área para construir sua casa? Bom, primeiro pela vista. Aqui fica em frente a única área de Artur Nogueira onde existe um resquício de Mata Atlântica. Muitas pessoas nem sabem que existe este tipo de mata aqui no município. Esta é uma área que já foi uma plantação de cana, ou seja, estava muito deteriorada. Infelizmente as pessoas hoje em dia só pensam em dinheiro e não ligam para como deixam o solo depois de plantar, colher, queimar. Aos poucos estou recuperando esta área para que a natureza possa encontrar seu curso. Aqui também se localiza a nascente do Rio Poquinha, o último que restou em Artur Nogueira. Com certeza é um terreno muito especial.

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O terreno ao redor da residência está sendo recuperado por Andrew.

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Artur Nogueira tem potencial para receber este tipo de construção ecológica? Sem dúvida. O mundo da construção Civil já visa essa direção, então todas as cidades vão se adaptando a esse formato.

Como arquiteto e urbanista, qual você considera o caminho a ser percorrido por Artur Nogueira para se tornar ecológica e sustentável? Já existem muitas pesquisas e exemplos em cima deste caminho. Uma delas e do Siemens Green City Index, um projeto de análises da Economist Intelligence Unit, da Grã-Bretanha, que organiza um ranking das cidades mais ‘verdes’ do mundo, atribuindo pontos nos quesitos de emissões de gases poluentes, alternativas de transporte, gerenciamento de recursos hídricos e do lixo e políticas ambientais. Do mapeamento verde tem-se estudos que relatam, ainda, que o aumento de 10% na cobertura vegetal em Munique durante o verão é capaz de diminuir até 1,4 °C a temperatura superficial, e mais, o arrefecimento da temperatura também resulta na redução da utilização de energia elétrica e economia na conservação da pavimentação viária, vez que as árvores possuem efeito protetor de pavimentos e construções produzindo sombras e diminuindo a incidência direta de Sol. Em Artur Nogueira estas medidas também podem ser implantadas.

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Qual o futuro do mercado das construções ecológicas? Por quê se preocupar com isso? O mundo da ecologia é a nova barreira da evolução humana e a construção civil está dentro deste futuro. Temos que nos preocupar com o bem-estar do meio ambiente.

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O arquiteto afirma que os bambus utilizados podem durar a vida inteira.

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