23/10/2016

Aos 90 anos, japonês dá lição de vitalidade em Artur Nogueira

Tokimune Ono conta história de vida e como superou a depressão com rotina de exercícios.

Rui do Amaral

No extremo sul do Japão, banhada pelo Oceano Pacífico, repousa a metrópole de Fukuoka, com seus mais de 1,4 milhão de habitantes. Porém, muito antes de ser elevada a cidade (fato que ocorreu em 1972), nascia em seus domínios um bebê chamado Tokimune Ono, em 17 de outubro de 1926. A data completou 90 anos na última segunda-feira (17), celebrando assim mais um aniversário do citado bebê. Hoje, o nonagenário vive bem longe de onde nasceu. Mais precisamente, Tokimune vive em Artur Nogueira, onde esbanja uma vida de dar inveja até aos mais jovens. Cinco vezes por semana, ele dirige seu carro até a academia RN Sport onde pratica musculação e hidroginástica. Mas o fato é que nem sempre foi assim, e para entender como um japonês de 90 anos veio parar no ‘Berço da Amizade’, o Portal Nogueirense conversou com este exemplo de vida. Aproveite a leitura.

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O primeiro pensamento que vem à mente assim que se vê Tokimune Ono é bastante pontual: ele não parece ter 90 anos. Com olhos espertos e sempre muito expressivos, o senhor Ono logo puxa uma cadeira para se sentir mais confortável e assim poder contar sua história da maneira que mais lhe agrada: sorrindo. O sorriso, inclusive, parece ser companheiro inseparável do simpático recém aniversariante.

Ajudado pelo filho Mario Ono, Tokimune começa explicando que não se lembra muito dos menos de dez anos que viveu em Fukuoka. “No início da década de 1930 embarcamos, eu, meus pais e meus quatro irmãos, num cargueiro rumo ao Brasil. A viagem foi cansativa, já que o imenso navio parava em todos os lugares até chegarmos em Santos/SP”. Foi na terra de Pelé que o senhor Ono pisou pela primeira vez o chão tupiniquim. “Foi bom chegar, durante o percurso três pessoas morreram. Não queríamos mais ficar dentro do navio”, deixa bem claro enquanto utiliza o indicador para enfatizar o argumento.

Deixaram Santos/SP e, a família, então, mudou-se para Bauru/SP. A vida na fazenda lhes aguardava, bem como uma generosa e brasileiríssima lavoura de café. “Vivíamos num subdistrito chamado Tibiriçá, em um sítio. Ali que tenho minhas primeiras memórias. Morávamos em família e todos trabalhávamos na roça. Algum tempo depois, nós fomos para Bauru/SP mesmo, em outra fazenda, pois nossa família se desentendeu com o dono do lugar onde estávamos”. O negro do café agora dava lugar às colheitas de algodão. A esta altura, os irmãos haviam tomado outros rumos. O momento de Tokimune deixar a lavoura também chegaria logo em seguida, quando mudou-se para a cidade de São Paulo.

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Na capital, envolveu-se no ramo de lavanderia. Percorria as ruas da terra da garoa entregando e buscando roupas, até pouco antes dos 27 anos de idade, quando voltou a Bauru/SP para casar-se. “Nossas famílias (minha e de minha esposa) já eram bem conhecidas ali onde morávamos. Nos mudamos para São Paulo novamente, mas, desta vez, montei minha própria lavanderia no bairro Freguesia do Ó”. Naquela época, segundo o senhor Ono, a colônia japonesa era muito unida. “Tinha muitos amigos por lá. Exerci este trabalho em São Paulo por uns 40 anos, até a década de 1980”. Foi então que um acontecimento marcou sua vida e o fez se aposentar.

“Aos 64 anos, sofri um assalto e acabei levando um tiro que entrou em meu ombro direito e saiu pelas costas. Não foi nada tão grave, mas percebi que estava muito perigoso e decidi pela aposentadoria mesmo”, confessa. Mesmo sem trabalhar, continuou em São Paulo até 1990, quando rumou para o Japão afim de experimentar a vida na Terra do Sol Nascente, que mal lembrava como era. “Fui para Toyama, cidade com pouco mais de 400 mil habitantes. Lá trabalhei junto de minha esposa num hotel, fazendo serviços gerais. Como no Japão as camas são bem mais baixas do que no Brasil, precisávamos forçar muito a coluna”. As costas da esposa ficaram bastante comprometidas nos dois anos que o casal morou do outro lado do mundo e, dois anos depois, voltaram ao Brasil. Mas o retorno não durou muito, já que o filho Mario (o mesmo que participou da entrevista) mudou-se no mesmo ano para Tokyo.

O fato fez com que o casal novamente fosse ao Japão, de novo à cidade de Toyama. Porém, o filho arranjou para os pais um trabalho também na capital do país, em um alojamento. “Ficamos no Japão até 1994, mas o Mario ficou por lá. Gostei muito, mas não é como no Brasil. Lá é tudo muito puxado, não tem sossego como aqui. O povo trabalha de verdade. Se você fica sentado, já vem alguém te mandar trabalhar”, conta, se desmanchando em uma sincera gargalhada.

Já em São Paulo novamente, mais precisamente em Osasco/SP, o casal aproveitou a vida de aposentado. Porém em 2004, um AVC somado aos problemas de coluna fizeram com que a esposa ficasse em uma situação cada vez mais delicada. Em 2010, já em estado vegetativo, Mario teve de voltar do Japão para ajudar a cuidar da mãe. Como o trânsito e a violência aumentavam na mesma proporção (e a idade já começava a pesar), o filho decidiu ir à caça de uma cidade mais tranquila para os pais viverem. “Foi então que meu filho descobriu Artur Nogueira, ainda em 2010, e nos trouxe para viver aqui. Confesso que a adaptação foi muito difícil. Lá em São Paulo eu tinha meus amigos e aqui não conhecia uma só pessoa. A dificuldade com o português também foi difícil e acabei me isolando”. Com o falecimento da esposa em 2013, a depressão chegou na vida do senhor Ono. “Fiquei realmente deprimido. Brigava e implicava à toa, não dava mais”. Mas ainda não era o fim para Tokimune Ono.

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“Foi então que um amigo meu me sugeriu que eu frequentasse uma academia, a fim de me exercitar e sair um pouco de casa. Por influência dele eu me matriculei em 2014”. Senhor Ono, desde então, não parou mais. Chegou a mudar de academia, mas não a sua rotina de exercícios, que vai de segunda à sexta-feira, sem exceções. “Faço musculação durante uma hora por dia. Três vezes por semana também faço natação e hidroginástica”. A depressão parece ter ido para longe depois que a interação com equipamentos de musculação começou.

Praticamente independente, senhor Ono dirige até a academia onde treina. Também é dirigindo que ele realiza as demais atividades, como fazer compras e se consultar. Sua pele, companheira há 90 anos, esconde muito bem a longa e nada parada vida do simpático japonês. A dermatologista do senhor Ono, Patrícia Teresani, já chegou inclusive a se referir ao velhinho como portador de uma pele “realmente invejável”.

Perguntado sobre o que acha de viver em Artur Nogueira, senhor Ono demonstra gostar muito do município e não esconde que sente muita falta dos amigos. Mesmo no Brasil há tanto tempo, o aposentado sabe que pertence a uma outra nação, mas não tem mais planos de voltar ao Japão. “Me sinto mais japonês do que brasileiro, mas chega de viajar. Estou muito bem por aqui”.

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