14/05/2017

Aos 101 anos de idade, moradora de Artur Nogueira relembra criação dos filhos e vida na roça

No Dia das Mães, Aurora Bratfisch conta sobre os anos em que cortou cana e comenta a dor de ver filhos morrerem

Da redação

Protegendo-se do frio com um casaco florido amarelo e uma manta verde, dona Aurora Bratfisch inclina-se para frente na cadeira. Com seus olhos verdes focando o vazio, ela olha para dentro de si, procurando memórias quase centenárias. Ao lembrar-se da vida na roça e da criação dos filhos, a senhora de 101 anos de idade expressa um sorriso de satisfação. “Ser mãe é uma coisa muito boa”, afirma com a alegria serena do dever cumprido. A expressão doce, porém, se amarga ao recordar que, dos seis filhos que gerou, apenas dois estão vivos hoje.

Aurora nasceu num sítio próximo a Cosmópolis, em 30 de abril de 1916. Para se ter uma ideia de como isso faz tempo, o município ‘Berço da Amizade’ ainda não existia oficialmente. Naquele ano, o vilarejo da Lagoa Seca se tornaria ‘Districto de Paz de Arthur Nogueira’, uma época em que até a língua portuguesa era diferente. Quando a senhora de longos cabelos brancos nasceu, as fotos não possuíam cores, a TV não existia e a 1ª Guerra Mundial alterava a geografia da Europa, de onde seus pais e avós vieram alguns anos antes.

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Descendente de alemães, italianos, portugueses e bugres, Aurora viveu a maior parte de seus muitos anos no sítio. Teve doze irmãos. “Nós eramos uma família muito feliz. A gente viveu uma vida muito feliz”, recorda. Da mãe, ela lembra com muito carinho. “Minha mãe foi muito boa. Teve 16 filhos, dos quais viveram 13″. Dos irmãos, lembra com saudade. “Eles cresceram, viraram moços, casaram, cuidaram da vida e agora morreram todos. Sou só eu”, comenta reflexiva. Do pai, fala pouco. O semblante se fecha. “Ele morreu faz bastante tempo. A mãe também.”

Apesar de a vida na roça ter sido alegre, não era fácil. Por isso, o pai de Aurora tentou preservar a esposa. “Ela nunca trabalhou na roça. Meu pai nunca deixou. Ela cuidava dos filhos e da casa”, conta Aurora. Sobre a mãe, ela não fala mais. Nem sobre o pai. A memória já não é tão assertiva e confiável quanto antigamente. E quando não consegue se lembrar de algo, os olhos se fixam no chão, o sorriso desaparece, os ombros se encolhem. Pede desculpas por não conseguir lembrar. Não há o que desculpar.

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“Trabalhei na roça toda a vida”, e sua voz ganha novo ânimo. Sobre o trabalho no campo, há muito o que falar. Afinal, ela manejou a enxada desde os oito anos de idade. Estudou só um ano. Não tinha escola no sítio, nem recursos suficientes. A prioridade de seus pais era alimentar os filhos; a educação formal viria quando desse. No caso de Aurora, só deu bem mais tarde, e na forma de um diploma de costura, que garantiu a renda dela quando seu corpo já não aguentava com o mesmo vigor a fadiga do trabalho rural.

Antes disso, no entanto, o corpo aguentou muito. Foram mais de 20 anos na colheita braçal de safras de arroz, milho, feijão, algodão e, por fim, cana. “Nossa! Aquilo cansa que judia”, dispara Aurora, lembrando sem saudade do sofrimento que aquilo lhe proporcionou. “Naquele tempo, vinha um trem para pegar a cana. Ele vinha, carregava e levava tudo embora. E era sol, era chuva, era frio, era calor, tinha que carregar os vagões. Às 12 horas ele vinha, e tinha que carregar os vagões. Eu trabalhei castigada”, conta. “Não é brincadeira, não”, afirma aliviada por não sofrer mais com isso.

A luta diária de Aurora no campo, sob sol, chuva, frio e calor, tinha um bom motivo. Ou melhor, dois: seus filhos. Sem estudo, vivendo no campo e com uma saúde vigorosa, ela se desdobrava em quantas fosse preciso para criar dignamente os meninos, Orlando e José Carlos. E assim ela labutou dia após dia, até que os filhos cresceram. Em vista disso, a agruras pelas quais passou são varridas de sua mente. “Ser mãe é uma coisa muito boa”, e expressa um sorriso satisfeito. “Quando os filhos são bons e a gente cuida bem, quando o marido é bom, então a gente sente alegria, né?”, acrescenta. “Não igual ao tempo de solteiro, que não tem essa oportunidade de serviço. É uma vida boa”, reflete.

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A vida dá e a vida tira. Aos 101 anos de idade, é difícil dizer se o saldo é positivo ou negativo. O que se pode dizer é que Aurora conheceu cedo a dor da perda. Apesar de ter criado dois filhos, ela perdeu outros quatro. Apenas o primeiro e o penúltimo cresceram. “Isso cala o coração da gente, é muito difícil”, conta com uma lucidez impressionante e um semblante mais sério do que os que esboçara ate então. Não há o que se comentar. Nenhuma mãe deveria ver seus filhos morrerem.

Depois que os anos começaram a pesar sobre os ombros de Aurora, ela abandonou a colheita de cana e dedicou-se à costura. Mudou-se para a cidade de Cosmópolis e trabalhou em muitos casamentos e festas. “Naquele tempo, não se comprava as camisas prontas para casamento. A gente tinha que fazer, e eu fiz muitas. Depois, cansei”, resume. Ela ainda coseu vestidos de noivas e muitos outros tipos de roupas. A cozinha também a ajudou com a aposentadoria, especialmente depois que seu marido morreu. Quando não preparava o traje dos noivos, cuidava do bolo.

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“Eu parei de trabalhar há seis anos. Faz cinco anos que não trabalho mais nada, nada”, afirma. Aurora não sabe dizer por que conseguiu chegar tão bem ao 101 anos de idade. Mas, talvez, o fato de sempre trabalhar, de sempre se manter ativa, seja o segredo de uma vida tão longa.

Uma vida que, para ela, apesar das dificuldades, valeu a pena. Seus dois filhos moram hoje em Cosmópolis. Um tem 77 anos, o outro, 71. Ambos casados e com filhos – e netos.

Aurora Bratfisch vive há três anos na Aidan, em Artur Nogueira. Passou seus três últimos aniversários na companhia de outros senhores e senhoras com muita história para contar, embora não tanto quanto ela. As comemorações foram alegres e cheias de visitas. Ela gostou, mas não parece mais ficar muito animada com esse tipo de coisa após 101 bolos. “Se Deus quiser, eu vou fazer o meu próximo aniversário lá em cima”, afirma com mais um sorriso.

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